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O "novo" quadro
político brasileiro
*Cândido Mendes Prunes
As
eleições gerais de outubro / novembro de 2002,
ao renovar a totalidade da representação na
Câmara, e de 2/3 do Senado Federal, bem como eleger
um novo Presidente da República que não pertence
ao mesmo partido hoje à frente do Poder Executivo,
sugerem que um novo quadro político emergiu das urnas.
Na verdade a única coisa que mudou foi composição
da coalizão de esquerda que continuará a governar
o País.
Uma perspectiva histórica permite confirmar esta tese.
Embora os governos militares tenham sido tradicionalmente
considerados de direita pelas oposições,
é inegável que a agenda econômica do Brasil
na década de 70 foi dominada pelo agigantamento do
estado, simbolizado pela proliferação das empresas
bras. A abertura política e a transição
para um regime civil não reverteu esta tendência
nos anos 80: os inúmeros planos econômicos ensaiados
para conter a inflação impuseram a presença
do estado sobre e no domínio econômico. Basta
lembrar os vários tabelamentos / congelamentos de preços
impostos pelas autoridades econômicas (planos Cruzado
I e II, Bresser, Verão e, finalmente, Collor). E, para
coroar a onda estatizante, foi promulgada em 1988 uma nova
Constituição Federal ,que só fez ampliar
desmesuradamente o poder governamental, ainda que sob a falsa
denominação de constituição cidadã.
Os anos 90 também não apresentam um quadro
diferente: algumas empresas ou setores foram privatizados,
mas dentro de um contexto de forte regulamentação
e controle estatal, determinando apenas uma mudança
quanto à propriedade das empresas, mas não quanto
à liberdade empresarial, cerne de um regime baseado
na livre iniciativa. Durante boa parte da década de
90, um dos preços mais importantes para orientar os
agentes econômicos o valor da moeda nacional
frente ao dólar permaneceu na camisa de força
do câmbio fixo imposto pelo Banco Central. A União,
os estados e municípios continuaram a gastar mais recursos
do que arrecadavam, elevando o déficit do setor público
a patamares nunca antes atingidos. Como conseqüência,
outro importante preço que orienta todos os agentes
econômicos permaneceu integralmente atrelado ao setor
público: a taxa de juros. E, ainda, ao longo dos anos
90, o chamado MST violou sistematicamente o direito de propriedade,
invadindo terras particulares e prédios públicos,
sob o olhar complacente das autoridades a quem incumbia reprimir
a violência cometida.
Neste final de 2002, como acima se mencionou, o governo que
tomará posse é composto por uma nova coalizão
socialista. E, coincidência ou não, em janeiro
de 2003 entrará em vigor o novo Código Civil
Brasileiro, concebido e discutido no Congresso durante um
período em que a mentalidade imperante entregava para
o Estado a maior parte das responsabilidades que caberiam
aos cidadãos. Diante desse quadro institucional, e
das forças políticas que se compuseram como
resultado das eleições, não podemos concluir
que haverá mudanças. A sociedade brasileira
continuará no rumo de atribuir ao estado cada vez mais
funções, que serão executadas a um custo
cada vez mais alto, tanto em termos econômicos quanto
em sacrifício das liberdades individuais. O quadro
político brasileiro de 2002 é tão novo
quanto o argentino. Só que lá, a novidade começou
há mais de 70 anos. O resultado, entretanto, todos
já estão cansados de conhecer.
*advogado e ensaísta.
 
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