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Edição Nº 32 - 21 de Novembro de 2002
Artigo

A derrota e a vitória de Fernando Henrique

*Fernando Schuler

O Brasil vive, neste novembro/dezembro de 2002, o melhor dos mundos. FH presidente, Armínio no Banco Central e Lula em sua lua de mel com o país, dono de todas as esperanças. Enquanto Lula impressiona-se com o tamanho da churrasqueira da Granja do Torto – pessoalmente, teria preferido ver o presidente eleito mais interessado na biblioteca do Palácio da Alvorada -, FH é saudado por lorde Jenkins de Hillhead, reitor da Universidade de Oxford, como o mais destacado intelectual entre todos os chefes de Estado do mundo. Ceteribus paribus, será um alegre final de ano.

O curioso paradoxo dessas eleições consiste no fato de que, após 10 anos de hegemonia do bloco político centro-liberal, no país, sob a batuta do Presidente Fernando Henrique, a oposição vence e, ao vencer, adota como seu precisamente o discurso que presidiu aquele ciclo hegemônico. Não se tratou, é verdade, de uma adoção repentina, feita abruptamente após o dia 27 de outubro. Ao longo do ano, na medida em que as pesquisas iam consolidando seu favoritismo, Lula ia acrescentando doses crescentes de razoabilidade seu discurso. O candidato petista foi gradativamente se afastando da teoria fantástica da “vontade política” e foi aderindo, ponto por ponto, às idéias da “governança responsável”. Possivelmente ele não saiba que o termo existe e é, hoje, um dos mais caros a FH, mas é mais ou menos para onde se dirige o discurso do PT governista, sob o comando de Antônio Palocci. O prefeito licenciado de Ribeirão Preto, aliás, protagonizou, na última semana, o episódio mais significativo dessa transfusão discursiva. Ao responder sobre a evolução da taxa de juros, afirmou que não podemos modificar [os juros] se temos responsabilidade no processo econômico. Isso não é um ato de vontade. Tudo perfeitamente normal, se não tivesse, dois meses atrás, o então candidato do “Brasil descente” reiterado, em cadeia nacional, que a taxa de juros era sim uma questão política e que o Brasil era o único país do mundo em que o Presidente diz que não pode reduzir os juros porque quem reduz é o mercado.

A governança responsável é, a rigor, apenas um pacote de preceitos razoáveis para qualquer governo civilizado neste início de século: respeito à democracia e às liberdades, distensão política, responsabilidade fiscal, respeito aos contratos, racionalidade no gasto público, geração de programas que combinem inclusão social e educação, etc. O grande mérito do Governo de Fernando Henrique foi a criação de uma agenda nacional em torno desses temas. Não é por acaso que agora, quando o PT anuncia um programa de combate a fome baseado na entrega de cupons ( ou dinheiro ) às pessoas em situação de risco social, desvinculado da exigência educacional, setores representativos da sociedade, Dona Zilda Arns a frente, reagem negativamente, temendo um retrocesso a políticas de tipo assistencialista que se pensavam superadas.

Fernando Henrique será cobrado, no futuro, muito mais pela falta de firmeza na consecução da agenda que seu próprio governo concebeu ( mormente a questão das reformas previdenciária, tributária e administrativa ), do que pelo perfil programático de sua gestão. Boa parte do empresariado esclarecido do país faz, sobre isto, um prognóstico curioso: supõem que Lula, pleno de credibilidade em setores sociais organizados da sociedade onde o nome de FH não podia ser pronunciado, terá condições de cumprir, na esteira de seus 53 milhões de votos, o ciclo de reformas gestadas na era FHC. Supõe que de fato que Lula possa ter se livrado de seus compromissos, de até bem pouco, com o Brasil das corporações, dos arroubos ideológicos e da irresponsabilidade fiscal. Não sabemos se é um prognóstico realista, mas é um bom prognóstico.


*Mestre em Ciências Políticas e Doutorando em Filosofia Política

 

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