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A derrota e a vitória
de Fernando Henrique
*Fernando Schuler
O
Brasil vive, neste novembro/dezembro de 2002, o melhor dos
mundos. FH presidente, Armínio no Banco Central e Lula
em sua lua de mel com o país, dono de todas as esperanças.
Enquanto Lula impressiona-se com o tamanho da churrasqueira
da Granja do Torto pessoalmente, teria preferido ver
o presidente eleito mais interessado na biblioteca do Palácio
da Alvorada -, FH é saudado por lorde Jenkins de Hillhead,
reitor da Universidade de Oxford, como o mais destacado
intelectual entre todos os chefes de Estado do mundo. Ceteribus
paribus, será um alegre final de ano.
O curioso paradoxo dessas eleições consiste
no fato de que, após 10 anos de hegemonia do bloco
político centro-liberal, no país, sob a batuta
do Presidente Fernando Henrique, a oposição
vence e, ao vencer, adota como seu precisamente o discurso
que presidiu aquele ciclo hegemônico. Não se
tratou, é verdade, de uma adoção repentina,
feita abruptamente após o dia 27 de outubro. Ao longo
do ano, na medida em que as pesquisas iam consolidando seu
favoritismo, Lula ia acrescentando doses crescentes de razoabilidade
seu discurso. O candidato petista foi gradativamente se afastando
da teoria fantástica da vontade política
e foi aderindo, ponto por ponto, às idéias da
governança responsável. Possivelmente
ele não saiba que o termo existe e é, hoje,
um dos mais caros a FH, mas é mais ou menos para onde
se dirige o discurso do PT governista, sob o comando de Antônio
Palocci. O prefeito licenciado de Ribeirão Preto, aliás,
protagonizou, na última semana, o episódio mais
significativo dessa transfusão discursiva. Ao responder
sobre a evolução da taxa de juros, afirmou que
não podemos modificar [os juros] se temos responsabilidade
no processo econômico. Isso não é um ato
de vontade. Tudo perfeitamente normal, se não tivesse,
dois meses atrás, o então candidato do Brasil
descente reiterado, em cadeia nacional, que a taxa de
juros era sim uma questão política e que o Brasil
era o único país do mundo em que o Presidente
diz que não pode reduzir os juros porque quem reduz
é o mercado.
A governança responsável é, a rigor,
apenas um pacote de preceitos razoáveis para qualquer
governo civilizado neste início de século: respeito
à democracia e às liberdades, distensão
política, responsabilidade fiscal, respeito aos contratos,
racionalidade no gasto público, geração
de programas que combinem inclusão social e educação,
etc. O grande mérito do Governo de Fernando Henrique
foi a criação de uma agenda nacional em torno
desses temas. Não é por acaso que agora, quando
o PT anuncia um programa de combate a fome baseado na entrega
de cupons ( ou dinheiro ) às pessoas em situação
de risco social, desvinculado da exigência educacional,
setores representativos da sociedade, Dona Zilda Arns a frente,
reagem negativamente, temendo um retrocesso a políticas
de tipo assistencialista que se pensavam superadas.
Fernando Henrique será cobrado, no futuro, muito mais
pela falta de firmeza na consecução da agenda
que seu próprio governo concebeu ( mormente a questão
das reformas previdenciária, tributária e administrativa
), do que pelo perfil programático de sua gestão.
Boa parte do empresariado esclarecido do país faz,
sobre isto, um prognóstico curioso: supõem que
Lula, pleno de credibilidade em setores sociais organizados
da sociedade onde o nome de FH não podia ser pronunciado,
terá condições de cumprir, na esteira
de seus 53 milhões de votos, o ciclo de reformas gestadas
na era FHC. Supõe que de fato que Lula possa ter se
livrado de seus compromissos, de até bem pouco, com
o Brasil das corporações, dos arroubos ideológicos
e da irresponsabilidade fiscal. Não sabemos se é
um prognóstico realista, mas é um bom prognóstico.
*Mestre em Ciências Políticas e Doutorando em
Filosofia Política


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