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Edição Nº 32 - 21 de Novembro de 2002
Artigo de Capa

Perspectiva Econômica Brasileira para 2003 com o Novo Quadro Político.

*Roberto Camps Moraes

Qualquer exercício de projeção econômica para o ano 2003 deve ser mais cauteloso do que aqueles realizados em anos anteriores, tantas são as incertezas externas e internas. As probabilidades que ponderam os cenários mais e menos otimistas mudaram para pior, assim como o grau de confiança nas mesmas. No plano externo há o perigo de que um conflito armado no Oriente Médio possa gerar interrupções sérias nos fluxos abastecimento de petróleo e que o seu preço dispare, apesar do fato que as atuais exportações do Iraque sejam pequenas em relação à oferta mundial. Além disto, as repercussões políticas e econômicas de um possível conflito podem enfraquecer mais ainda a recuperação econômica em curso nos EUA que sucede à recessão de 2001. Mais grave ainda é que, embora as políticas monetária e fiscal americanas estejam acionadas fortemente na direção expansionista, o seu potencial de uso está perigosamente perto de um nível de exaustão, com a taxa de juros de 1,25 % a.a. e um déficit fiscal crescente. A economia japonesa permanece em estado de estagnação e com problemas estruturais que impedem a retomada do crescimento. A economia européia está desacelerando e não há perspectiva de uma reversão a curto prazo. O único elemento positivo na economia mundial, do ponto de vista conjuntural, é a retomada do crescimento das economias asiáticas e a continuidade do crescimento chinês.

No plano interno, o novo governo brasileiro contará com um colchão poderoso de 23 bilhões de dólares provenientes do FMI para a sua fase inicial. Mas qualquer sinal de ruptura com o comprometimento assumido com as metas fiscais e monetárias do acordo podem precipitar um aprofundamento da crise de confiança e uma situação de insolvência imediata. Neste aspecto a economia brasileira está no fio da navalha. O lado positivo é que a arquitetura monetária e cambial já instalada é muito apropriada para manter a economia numa trajetória de recuperação pelas exportações, consistente com a redução da dependência de capitais externos. Esta trajetória é, atualmente, a única viável para comandar o crescimento, dado que a redução significativa da preferência pelo risco nos fluxos de capital continuará se fazer sentir no médio prazo. No entanto, por mais que o novo governo mantenha os seus compromissos – mantendo e cumprindo as referidas metas e, quem sabe, institucionalizando a independência do Banco Central e apontando um presidente do mesmo que tenha uma boa reputação – os resultados, em termos de crescimento econômico, não serão espetaculares. Isto porque o crescimento das exportações será limitado pelo crescimento anêmico provável da demanda mundial e só se manterá se, como até agora, a situação cambial se consolidar, ratificando uma desvalorização real pronunciada. Uma volta da inflação poderia por tudo a perder. A perspectiva de um choque positivo a curto prazo proveniente de um aumento de comércio internacional pelo maior acesso a mercados externos via Alca e/ou Mercosul e/ou União Européia parece distante, diante das tendências protecionistas recentes. Resta portanto, torcer para que o novo governo seja pragmático, cauteloso e inteligente, preservando a janela de crescimento que o país tem a sua disposição como exportador e importador global de mercadorias e serviços.

*Professor Titular da UFRGS

 

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