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Edição Nº 34 - 29 de Janeiro de 2003
Artigo

OS SISTEMAS TOTALITÁRIOS

*Antônio Paim

Os sistemas totalitários surgiram no século XX, primeiro na Rússia, com a chegada dos comunistas ao poder, após a Primeira Guerra Mundial. Nas décadas de trinta e quarenta, os nazistas introduziram sistema análogo na Alemanha, liquidando com a derrota na Segunda Guerra. O totalitarismo sobreviveu na Rússia até fins da década de oitenta. Constituindo uma novidade, sua perfeita caracterização provocou acirrados debates. Na extensa bibliografia que dali resultou, a solução teórica do problema seria devida a Hanah Arendt (1906/1975) no livro Totalitarismo, o paroxismo do poder (tradução brasileira, Ed. Documentário, 1979), parte de uma trilogia que mereceu o título geral de Origens do totalitarismo.

Hanah Arendt louvou-se dos chamados “Cadernos de Smolenski”, assim denominados os documentos que os alemães confiscaram naquela cidade russa, onde os dirigentes comunistas anotaram todas as iniciativas desde que chegaram ao poder em 1917. O relato abrangia aproximadamente vinte anos. Estudando-o detidamente, a autoria verificou que a polícia prendia sistematicamente todas as pessoas que, de uma forma ou de outra, revelavam alguma capacidade de liderança e formulavam essa ou aquela reivindicação. Em seguida não tomavam qualquer iniciativa. Esse silêncio aterrador, aplicado metodicamente, intimidava as pessoas que estavam mais próximas da vítima. Espontaneamente acabavam apresentando-se à polícia, antecipando-se à provável acusação de que estaria colaborando com um inimigo do regime. A partir de tal investigação, Arendt identificou como o traço essencial do totalitarismo à capacidade de quebra a solidariedade entre as pessoas, tranformando-as em massa amorfa.

O inexplicável no novo sistema que passou a ser denominado de totalitarismo consistia precisamente no fato de que, sendo notoriamente regime policialesco, onde vingou mobilizava a população em seu favor. Os totalitarismos exibiram sempre gigantescas demonstrações de massa. A chave da questão foi encontrada por Arendt: a prática do sistema convencia a população que não se podia confiar em ninguém. O fato de que a queda do regime soviético se haja iniciado por um movimento chamado Solidariedade, surgido num país satélite, a Polônia, veio confirmar a pertinência da tese.

Permanece em aberto a questão de saber-se como sair do totalitarismo. Louvando-se do que ocorrera na Alemanha e em face da solidez representada pelo totalitarismo russo, Arendt supunha que somente poderia extinguir-se pela força. A derrocada do comunismo de forma pacífica não encerrou a discussão em face da sobrevivência de sistemas idênticos, a exemplo de Cuba.
O totalitarismo substitui o sistema representativo de governo por uma outra modalidade denominada de cooptativo. A elite do poder é selecionada por cooptação efetivada de cima para baixo.

Filósofo e Escritor

 

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