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A ECONOMIA DO CRIME
*José Carrera Fernandez
Pesquisas
mostram que um dos maiores problemas que afligem os cidadãos
em todo o mundo é a criminalidade, superando inclusive
aqueles que tradicionalmente preocupam a opinião pública
mundial como o desemprego, a inflação, a elevada
carga tributária e os altos custos financeiros. No
Brasil, essa preocupação não é
diferente, principalmente porque a criminalidade tem vindo,
quase sempre, acompanhada de muita violência e tem afetado
todas as classes sociais, deixando de ser uma exclusividade
das camadas excluídas das periferias das grandes cidades.
Talvez por isso mesmo esse fenômeno tem atraído
mais a atenção da sociedade.
A criminalidade restringe o desenvolvimento das atividades
econômicas legais, não apenas pelo volume de
recursos econômicos desviados ou gastos em segurança
pública e privada, mas principalmente pela redução
da eficiência do setor legal da economia. O crime, cada
vez mais organizado, induz um fluxo migratório de recursos
produtivos e agentes para a atividade ilegal, os quais poderiam
estar sendo utilizados no setor legal da economia. Além
do mais, a criminalidade provoca uma redução
na qualidade de vida da sociedade, principalmente pelos danos
morais e perdas de vidas que ela induz.
Uma pequena corrente de economistas acredita que o aumento
da criminalidade está relacionado às características
do processo capitalista e é o resultado direto das
alterações do comportamento empresarial no período
pós-industrial. Outra corrente, mais ampla, acredita
que o aumento da criminalidade está associado a problemas
estruturais e conjunturais. Sem dúvida que altos índices
de desemprego e concentração de renda, baixos
níveis de escolaridade e renda, para citar alguns,
podem evidentemente agravar esse problema. É óbvio
que o descaso por parte dos governos com as atividades típicas
de estado, tais como policiamento e principalmente a justiça,
tem também contribuído para o crescimento da
criminalidade na maioria das cidades brasileiras.
Já existe um forte sentimento entre os estudiosos
de que o Estado brasileiro deveria priorizar a reforma de
seus códigos, totalmente ultrapassados, reestruturar
o poder judiciário, para torná-lo mais ágil
e eficiente, ao tempo em que deveria repensar o papel das
polícias, reunificando-as, de modo a atender os anseios
da sociedade. Embora essas políticas públicas
sejam medidas importantes, que podem efetivamente combater
e conter a criminalidade no país, outras medidas socioeconômicas
são ainda mais importantes para reduzir efetivamente
a criminalidade.
As políticas brasileiras na área de segurança
pública têm buscado, via de regra, soluções
pragmáticas de curto prazo, que represam as pressões
sociais e combatem os sintomas e, portanto, apresentam efeitos
temporários, sem levar em consideração
os condicionantes que levam os indivíduos à
criminalidade. De fato, tais políticas têm buscado
priorizar a repressão policial, sem que haja uma preocupação
explícita em atacar as verdadeiras causas que induzem
os indivíduos a migrarem para o setor do crime. A prova
mais contundente dessa distorção foi a promulgação
do Plano Nacional de Segurança Pública, contendo
apenas compromissos da ação pública na
área policial. No entanto, além de vontade política
e de significativos investimentos no aparato policial, o que
é realmente necessário para resolver a problemática
da criminalidade são políticas socioeconômicas
que priorizem o cidadão.
Estudos mostram que quanto maior for o nível da atividade
criminosa, maior também será a probabilidade
de aumentos nos índices de crimes, evidenciando uma
certa inércia ou efeito multiplicador do nível
da atividade criminosa sobre a taxa de variação
de seus índices. Constata-se também que a concentração
de renda está diretamente correlacionada com a probabilidade
de aumentos no agregado de crimes, revelando que a criminalidade
pode ser contida eficazmente com políticas públicas
que melhorem a distribuição de renda da sociedade.
Por outro lado, o grau de desenvolvimento do município,
embora possa significar mais oportunidades de emprego para
seus cidadãos, ele traz consigo um efeito líquido
perverso que aumenta os índices de criminalidade, tanto
a nível agregado quanto para a modalidade de furto
e roubo.
Os dados mostram que quanto maior for a renda do governo municipal,
menor será a probabilidade de aumentos nos índices
de criminalidade. Assim, ao reduzir a probabilidade de aumentos
nos índices de criminalidade, o princípio federalista
de repasse de verbas dos governos federal e estadual para
os municípios deve ganhar uma importância adicional
nas políticas públicas de combate ao crime.
Além do mais, os estudos revelaram que os investimentos
em educação reduzem, de fato, a probabilidade
de aumentos na criminalidade em geral. Ressalte-se que a educação,
embora tenha sido efetiva em conter o avanço da criminalidade
agregada, ela não se mostra efetiva no sentido de conter
a modalidade de furto e roubo, a qual é, por outro
lado, significativamente sensível ao tamanho da polícia.
Ao produzir algum conhecimento a cerca dos determinantes da
criminalidade, fenômeno social que vem crescentemente
preocupando a sociedade civil brasileira, espera-se que esse
problema seja encarado com mais seriedade pelo setor público.
Além do que, não é necessário
que a criminalidade atinja índices alarmantes e gere
insegurança suficiente para que as autoridades públicas
e a sociedade de um modo geral passem a levar esse problema
a sério. É com suficiente conhecimento desse
importante fenômeno social que a comunidade será
capaz de gerar ambientes mais seguros para o convívio
social de seus cidadãos.
*Professor do Curso de Mestrado em Economia
da Universidade Federal da Bahia e PhD* em Economia pela The
University of Chicago
 
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