MÍDIA
E VIOLÊNCIA
*José Antonio Vieira da Cunha
A
mídia desempenha, muitas vezes, o papel de espelho da sociedade,
ao registrar o cotidiano das pessoas e suas relações na comunidade.
Como espelho leva à reflexão, está aí uma grande responsabilidade
a pesar diariamente sobre os ombros dos profissionais de comunicação.
O profissional consciente sabe que não basta apenas noticiar,
é preciso questionar. E se antecipar. Assim como a polícia
será ineficiente se apenas comparecer ao local do delito para
reprimi-lo, sem desenvolver um trabalho prévio que leve a
levantar barreiras de constrangimento a eventuais criminosos,
também a mídia precisa estar atenta ao que acontece no meio,
evitando ficar sempre a reboque dos fatos.
Seja como for, a mídia age sempre como testemunha dos acontecimentos,
e não raras vezes é descuidada ao destacar com exagero determinadas
episódios mais violentos ou escabrosos. Há quem veja, inclusive,
uma exploração também exagerada dos crimes violentos contra
a pessoa, como chacinas, homicídios e seqüestros, levando-a
a ser propagadora ou exaltadora da violência.
A questão é que há um dilema permanente a perseguir os profissionais
da mídia: a violência atrai audiência, sempre! Programas de
TV que exploram aspectos da violência urbana obtêm ótimos
índices de audiência. O exemplo mais recente é o da Rede Band,
que está comemorando a contratação do apresentador Datena,
cujo programa que explora situações do gênero turbinou o horário
da emissora.
E assim como para pais e educadores, outro dilema está na
presença da televisão no cotidiano de crianças e jovens. Ela
é a principal fonte de informação e acaba sendo importante
formadora de opinião junto a este público que, por sua inexperiência
de vida, é mais vulnerável aos apelos televisivos Com uma
personalidade ainda em formação, recebe estas informações
que influenciam e estabelecem padrões de comportamento.
Mas a mídia não pode ser responsabilizada pelo comportamento
violento da criança nem pelo aumento da violência na sociedade.
Esta é antes uma questão basicamente política, que envolve
aspectos como a desigualdade social e o racismo. É por isto
que a mídia tem, sim, não um, mas vários papéis a desempenhar
aí, estimulando o debate permanente sobre a postura de governos
e governantes e a forma como a sociedade encara diferentes
níveis de violência. A mídia vai continuar, claro, registrando
as manifestações da sociedade, e cada vez que um ato for mais
violento que outro, as luzes estarão voltadas para ele. Mas
a mesma mídia pode, ao lado disto, ser questionada e cobrada
pela própria sociedade sempre que esta identificar desvios
de conduta naquela.
* Jornalista, diretor da Coletiva Comunicação
e Marketing (www.coletiva.net).

|