O TERRORISMO E A REALIDADE BRASILEIRA
*Cândido Mendes Prunes Os
sinais inusitados de violência registrados nas principais
capitais brasileiras exigem uma análise que vá
além da constatação de que vivemos uma
onda de criminalidade pura e simples. Os pesados armamentos
utilizados pelos bandidos e a ousadia das suas ações
sugerem uma ordem de problemas diferente daquela registrada
até há poucos anos.
Vejamos: quando a Polícia do Rio de Janeiro iniciou
a investigação do caso Tim Lopes, em 2002, encontrou
um local onde haviam sido incinerados 200 (duzentos) corpos,
sem o registro de uma única ocorrência policial
sobre tais monstruosidades; diversas favelas dos grandes centros
urbanos brasileiros têm os seus acessos controlados
por criminosos: desde simples professores primários
até agentes do IML nelas só podem ingressar
mediante prévio e expresso consentimento do ‘capo’
local; os criminosos hoje dispõem de um arsenal, senão
superior, ao menos igual, ao das Forças Armadas; as
favelas brasileiras se transformaram em local para refúgio
dos bandos criminosos, que a partir delas operam o tráfico
interno e internacional de entorpecentes e estabelecem as
suas ações, inclusive de “represália”
às autoridades constituídas, como têm
sido rotineiro no estado do Rio de Janeiro.
A criminalidade brasileira mais violenta está firmemente
assentada no tráfico de drogas, que tem como principal
fornecedor de ‘matéria prima’ a Colômbia,
onde agem impunemente grupos terroristas, como as temidas
FARC. Pois bem, este grupo já conquistou total autonomia
em relação ao estado colombiano, no final dos
anos 90, tendo inclusive um território definido, que
abarca 5 municípios, onde nenhuma autoridade está
autorizada a penetrar. Esta situação foi obtida
formalmente, inclusive com assinatura de um decreto presidencial.
Pois aqui no Brasil estamos vivendo uma situação
semelhante: o País perdeu a sua soberania sobre diversas
áreas do território nacional – e o que
é mais preocupante, territórios densamente povoados
– para o chamado crime organizado. Falta, apenas, o
reconhecimento formal dessa situação. Hoje,
nas mais de 600 favelas do Rio de Janeiro (o exemplo mais
visível), os agentes da União, do Estado e do
Município só podem nelas entrar se forem autorizados.
Assim ocorre com o oficial de justiça, um agente de
saúde, uma professora de escola primária, um
assistente social, para não falar da própria
polícia.
Enquanto as autoridades não se conscientizarem que
o País vive um clima de terrorismo, e constatar que
já perdeu sua soberania sobre diversas áreas
do território nacional, as soluções buscadas
serão tópicas, incapazes de reverter o quadro.
Assim, o engajamento de todo o contingente repressor do Estado
deve ser empregado, inclusive as forças armadas, pois
o território nacional está sendo atacado desde
o exterior. A desarticulação das polícias
estaduais e a pouca capacidade operacional da Polícia
Federal, são dois outros argumentos que apontam para
a necessidade de uma ação coordenada, em que
as forças armadas teriam um papel essencial a desempenhar.
Caso contrário, corremos o risco de, em pouco tempo,
ver a Presidência da República reconhecendo formalmente
a soberania dessas áreas para grupos criminosos, a
exemplo do que ocorreu na Colômbia.
* Advogado, Presidente do CIEEP - Centro Interdisciplinar
de Ética e Economia Personalista, do Rio de Janeiro.

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