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Edição Nº 37 - 6 de maio de 2003
Artigo
A MÍDIA COMO INSTRUMENTO DE COMBATE A VIOLÊNCIA

*Pedro Parente

É instigante e desafiador abordar a violência a partir de uma perspectiva cultural.

Neste sentido, não há dúvida de que a literatura e o cinema cumprem os seus papéis quando denunciam e expõem com realismo ou até mesmo de forma romanceada esta questão.

E a mídia, será que está sendo utilizada em seu potencial máximo como um instrumento de combate a violência?

Existem muitas indagações a respeito disso e não sei se existirão respostas definitivas para elas.

Um questionamento que recentemente tem sido feito com alguma freqüência é se a mídia ajuda ou atrapalha, se amplia a sensação de insegurança ou se alerta a população, se provoca o aumento da criminalidade ou colabora para erradicá-la.

Creio, no entanto, que algumas coisas são inquestionáveis.

As grades das residências, os seguranças particulares, os carros particulares blindados e o medo que todos têm de sair às ruas à noite ou de circular por determinadas áreas das grandes cidades não deixam dúvidas de que a violência em nosso país é real, não apenas já está em nível alarmante como contínua crescendo, e isso a torna cada vez mais próxima de todos. Talvez isso seja o mais apavorante: o que antes em geral era tido como algo que sim acontece, mas longe de nós, agora o sentimento é de que pode acontecer, se é que já não aconteceu, a qualquer um de nós, a nossos filhos, parentes e amigos próximos.

Por outro lado, também é preocupante a possibilidade de que a divulgação da violência seja um fator de realimentação da própria violência.

Quaisquer que sejam as respostas a essas questões, não se pode sequer admitir a idéia de que a mídia não deve noticiar a violência. Isso seria inaceitável, seria adotar uma posição autista, uma posição pela qual, aí, sim, se estaria prestando um claro e gravíssimo desserviço à população.

A divulgação é absolutamente indispensável por pelo menos duas razões fundamentais: (a) alertar a população sobre o verdadeiro quadro da violência, permitindo que adote as medidas que considere adequadas para se defender; e (b) permitir o necessário controle social sobre a ação do Poder Público.

Por tudo isso, acho que a resposta é: a mídia será fator de combate ou de contribuição, será conseqüência ou causa dependendo da abordagem que adotar na divulgação da violência. Ou seja, não se trata de deixar de retratar a realidade, o que seria, como já disse, inaceitável, e sim de como a realidade é retratada.

E aqui, temos que reconhecer que certos setores da mídia têm abordado o problema de forma no mínimo questionável.

Alguns programas de televisão, especialmente, tratam do tema com pouca responsabilidade. E há certo tipo de imprensa escrita, felizmente cada vez menos aceita, que faz do abuso do chamado hiper-realismo na divulgação dos fatos ligados à violência, digamos, um diferencial competitivo. Tudo isso em nome da conquista de audiência ou de leitores, dentro da abominável regra de que "os fins justificam os meios".

E diante do quadro crítico em que nos encontramos, mesmo a imprensa mais responsável tem que estar constantemente questionando se o que faz é o necessário e o adequado para ajudar as autoridades e os cidadãos a combater de forma mais efetiva este flagelo social. Talvez já não baste apenas informar a população de forma responsável, e cobrar soluções do poder público, como os órgãos de divulgação fazem historicamente. Mas o que mais seria necessário?

Novamente não é uma resposta simples, o que temos que fazer é estar abertos à discussão do tema, a críticas e sugestões. A RBS, dentro deste espírito, estará proximamente lançando uma campanha pública sujo objetivo é combater a violência infantil por intermédio de uma abordagem construtiva, que leva em conta que esta modalidade é praticada em maior ou menor grau dentro da família, com certa tolerância social (o que, obviamente, não reduz sua gravidade, ao contrário, torna-a mais complexa).

Por outro lado, também é necessário lembrar que o interesse público exige das autoridades que estejam permeáveis à atuação da imprensa, sem procurar desviar o foco sobre as causas do problema, por intermédio da tentativa de transferir responsabilidades ou, o que seria ainda pior, omitindo informações e dados estatíticos.

Em resumo: a ninguém pode ser dado o direito de achar que não tem responsabilidade no tratamento de um problema tão grave, em especial, a imprensa e os governantes. E dado o crescente poder, ousadia e instrumentos dos criminosos, somente uma ação conjunta, comprometida e dedicada poderá dar alguma garantia de que efetivamente o crime não compensa.

* Vice-Presidente Executivo da RBS

 

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