A MÍDIA COMO INSTRUMENTO DE COMBATE A VIOLÊNCIA
*Pedro Parente
É
instigante e desafiador abordar a violência a partir
de uma perspectiva cultural.
Neste sentido, não há dúvida de que
a literatura e o cinema cumprem os seus papéis quando
denunciam e expõem com realismo ou até mesmo
de forma romanceada esta questão.
E a mídia, será que está sendo utilizada
em seu potencial máximo como um instrumento de combate
a violência?
Existem muitas indagações a respeito disso
e não sei se existirão respostas definitivas
para elas.
Um questionamento que recentemente tem sido feito com alguma
freqüência é se a mídia ajuda ou
atrapalha, se amplia a sensação de insegurança
ou se alerta a população, se provoca o aumento
da criminalidade ou colabora para erradicá-la.
Creio, no entanto, que algumas coisas são inquestionáveis.
As grades das residências, os seguranças particulares,
os carros particulares blindados e o medo que todos têm
de sair às ruas à noite ou de circular por determinadas
áreas das grandes cidades não deixam dúvidas
de que a violência em nosso país é real,
não apenas já está em nível alarmante
como contínua crescendo, e isso a torna cada vez mais
próxima de todos. Talvez isso seja o mais apavorante:
o que antes em geral era tido como algo que sim acontece,
mas longe de nós, agora o sentimento é de que
pode acontecer, se é que já não aconteceu,
a qualquer um de nós, a nossos filhos, parentes e amigos
próximos.
Por outro lado, também é preocupante a possibilidade
de que a divulgação da violência seja
um fator de realimentação da própria
violência.
Quaisquer que sejam as respostas a essas questões,
não se pode sequer admitir a idéia de que a
mídia não deve noticiar a violência. Isso
seria inaceitável, seria adotar uma posição
autista, uma posição pela qual, aí, sim,
se estaria prestando um claro e gravíssimo desserviço
à população.
A divulgação é absolutamente indispensável
por pelo menos duas razões fundamentais: (a) alertar
a população sobre o verdadeiro quadro da violência,
permitindo que adote as medidas que considere adequadas para
se defender; e (b) permitir o necessário controle social
sobre a ação do Poder Público.
Por tudo isso, acho que a resposta é: a mídia
será fator de combate ou de contribuição,
será conseqüência ou causa dependendo da
abordagem que adotar na divulgação da violência.
Ou seja, não se trata de deixar de retratar a realidade,
o que seria, como já disse, inaceitável, e sim
de como a realidade é retratada.
E aqui, temos que reconhecer que certos setores da mídia
têm abordado o problema de forma no mínimo questionável.
Alguns programas de televisão, especialmente, tratam
do tema com pouca responsabilidade. E há certo tipo
de imprensa escrita, felizmente cada vez menos aceita, que
faz do abuso do chamado hiper-realismo na divulgação
dos fatos ligados à violência, digamos, um diferencial
competitivo. Tudo isso em nome da conquista de audiência
ou de leitores, dentro da abominável regra de que "os
fins justificam os meios".
E diante do quadro crítico em que nos encontramos,
mesmo a imprensa mais responsável tem que estar constantemente
questionando se o que faz é o necessário e o
adequado para ajudar as autoridades e os cidadãos a
combater de forma mais efetiva este flagelo social. Talvez
já não baste apenas informar a população
de forma responsável, e cobrar soluções
do poder público, como os órgãos de divulgação
fazem historicamente. Mas o que mais seria necessário?
Novamente não é uma resposta simples, o que
temos que fazer é estar abertos à discussão
do tema, a críticas e sugestões. A RBS, dentro
deste espírito, estará proximamente lançando
uma campanha pública sujo objetivo é combater
a violência infantil por intermédio de uma abordagem
construtiva, que leva em conta que esta modalidade é
praticada em maior ou menor grau dentro da família,
com certa tolerância social (o que, obviamente, não
reduz sua gravidade, ao contrário, torna-a mais complexa).
Por outro lado, também é necessário
lembrar que o interesse público exige das autoridades
que estejam permeáveis à atuação
da imprensa, sem procurar desviar o foco sobre as causas do
problema, por intermédio da tentativa de transferir
responsabilidades ou, o que seria ainda pior, omitindo informações
e dados estatíticos.
Em resumo: a ninguém pode ser dado o direito de achar
que não tem responsabilidade no tratamento de um problema
tão grave, em especial, a imprensa e os governantes.
E dado o crescente poder, ousadia e instrumentos dos criminosos,
somente uma ação conjunta, comprometida e dedicada
poderá dar alguma garantia de que efetivamente o crime
não compensa.
* Vice-Presidente Executivo da RBS

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