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"Aspectos Culturais que favorecem
o desenvolvimento"
*Flavio Comim
Sociedades
são formadas por culturas diversas e heterogêneas
que algumas vezes são até conflitantes em seus
sistemas de valores e práticas. No entanto, apesar
dessa diversidade é possível sugerir que algumas
culturas são mais condizentes ao desenvolvimento humano
de uma sociedade do que outras. A crítica aqui feita
ao argumento antropológico relativista, de que todas
as culturas devem ser plenamente respeitadas em suas idiossincrasias,
consiste no apelo ao respeito a valores humanos universais
que devem prevalecer independente do contexto cultural no
qual se viva. Em outras palavras: nem toda a cultura é
boa; existe a cultura do desrespeito às leis e às
liberdades civis, a cultura do machismo opressor que impede
mulheres de tomarem decisões fundamentais relativas
ao número de filhos que desejam ou ao seu ingresso
no mercado de trabalho e a cultura da falta de fraternidade
entre as pessoas, entre tantos outros exemplos que poderiam
ser dados aqui.
O importante, no entanto, é enfatizar que existem
alguns conjuntos de traços culturais que são
mais relevantes para a promoção do desenvolvimento
econômico e humano do que outros, tais como os referentes
ao estoque de capital social de uma sociedade. Por capital
social entende-se o conjunto de normas e valores que promovem
a cooperação e coordenação de
atividades entre os diferentes indivíduos da sociedade.
Quando existe, por exemplo, confiança, respeito mútuo,
reciprocidade e cooperação em uma sociedade,
os custos de transação são muito menores.
Assim, empresas e governo operam mais eficientemente. Não
é preciso contratar um segundo fiscal para fiscalizar
o primeiro fiscal, porque em última instância
se confia no primeiro fiscal. Não é necessário
gradear a casa porque não se confia no vizinho (ou
vizinhos). Não é necessário gastar tempo
planejando contra colegas de trabalho, competindo um com o
outro dentro da mesma empresa ao invés de serem parceiros
contra competidores externos.
É sabido que nas sociedades cujas culturas são
imbuídas de capital social, famílias dividem
melhor o risco econômico entre elas, firmas podem também
ser aliadas na geração de desenvolvimento, cidadãos
são mais solidários, recuperações
de pacientes em hospitais se fazem mais rápidas pois
amigos e vizinhos ajudam a família afetada pela doença,
e tantos outros exemplos.
Será que podemos investir em capital social? Será
que podemos transformar nossa sociedade em um lugar onde as
pessoas confiem mais uma nas outras? Onde a reciprocidade
e solidariedade possa ser uma constante nas relações
pessoas e institucionais? A literatura internacional nessa
área, liderada pelo Professor Robert Putnam da Universidade
de Harvard, responde sim a todas essas questões. O
segredo para tal é diminuir a desigualdade econômica
entre os indivíduos e reforçar as instituições
da sociedade onde eles operam, tais como, aumentar a eficiência
e liberdade do judiciário, garantir a provisão
de bens públicos universais a todos cidadãos,
tais como saúde e educação, respeitar
o direito de propriedade e regras de contratos. Enfim, cultura
sendo um meio para atingir o desenvolvimento, e também
um fim em sí mesmo, através da reafirmação
de seus aspectos positivos.
Concluindo, podemos dizer que investir no desenvolvimento
consiste não somente na promoção do crescimento
econômico mas também na promoção
de elementos culturais que podem fazer da experiência
do desenvolvimento uma transformação qualitativa
da sociedade em busca de cooperação, reciprocidade,
confiança e reciprocidade entre os indivíduos
que dela fazem parte.
* Professor da Pós-Graduação em Economia da UFRGS, Fellow
do St Edmund's College, Universidade de Cambridge

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