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Edição Nº 40- 31 de julho de 2003
Artigo de Capa

"Aspectos Culturais que favorecem o desenvolvimento"

*Flavio Comim

Sociedades são formadas por culturas diversas e heterogêneas que algumas vezes são até conflitantes em seus sistemas de valores e práticas. No entanto, apesar dessa diversidade é possível sugerir que algumas culturas são mais condizentes ao desenvolvimento humano de uma sociedade do que outras. A crítica aqui feita ao argumento antropológico relativista, de que todas as culturas devem ser plenamente respeitadas em suas idiossincrasias, consiste no apelo ao respeito a valores humanos universais que devem prevalecer independente do contexto cultural no qual se viva. Em outras palavras: nem toda a cultura é boa; existe a cultura do desrespeito às leis e às liberdades civis, a cultura do machismo opressor que impede mulheres de tomarem decisões fundamentais relativas ao número de filhos que desejam ou ao seu ingresso no mercado de trabalho e a cultura da falta de fraternidade entre as pessoas, entre tantos outros exemplos que poderiam ser dados aqui.

O importante, no entanto, é enfatizar que existem alguns conjuntos de traços culturais que são mais relevantes para a promoção do desenvolvimento econômico e humano do que outros, tais como os referentes ao estoque de capital social de uma sociedade. Por capital social entende-se o conjunto de normas e valores que promovem a cooperação e coordenação de atividades entre os diferentes indivíduos da sociedade. Quando existe, por exemplo, confiança, respeito mútuo, reciprocidade e cooperação em uma sociedade, os custos de transação são muito menores. Assim, empresas e governo operam mais eficientemente. Não é preciso contratar um segundo fiscal para fiscalizar o primeiro fiscal, porque em última instância se confia no primeiro fiscal. Não é necessário gradear a casa porque não se confia no vizinho (ou vizinhos). Não é necessário gastar tempo planejando contra colegas de trabalho, competindo um com o outro dentro da mesma empresa ao invés de serem parceiros contra competidores externos.

É sabido que nas sociedades cujas culturas são imbuídas de capital social, famílias dividem melhor o risco econômico entre elas, firmas podem também ser aliadas na geração de desenvolvimento, cidadãos são mais solidários, recuperações de pacientes em hospitais se fazem mais rápidas pois amigos e vizinhos ajudam a família afetada pela doença, e tantos outros exemplos.

Será que podemos investir em capital social? Será que podemos transformar nossa sociedade em um lugar onde as pessoas confiem mais uma nas outras? Onde a reciprocidade e solidariedade possa ser uma constante nas relações pessoas e institucionais? A literatura internacional nessa área, liderada pelo Professor Robert Putnam da Universidade de Harvard, responde sim a todas essas questões. O segredo para tal é diminuir a desigualdade econômica entre os indivíduos e reforçar as instituições da sociedade onde eles operam, tais como, aumentar a eficiência e liberdade do judiciário, garantir a provisão de bens públicos universais a todos cidadãos, tais como saúde e educação, respeitar o direito de propriedade e regras de contratos. Enfim, cultura sendo um meio para atingir o desenvolvimento, e também um fim em sí mesmo, através da reafirmação de seus aspectos positivos.

Concluindo, podemos dizer que investir no desenvolvimento consiste não somente na promoção do crescimento econômico mas também na promoção de elementos culturais que podem fazer da experiência do desenvolvimento uma transformação qualitativa da sociedade em busca de cooperação, reciprocidade, confiança e reciprocidade entre os indivíduos que dela fazem parte.


* Professor da Pós-Graduação em Economia da UFRGS, Fellow do St Edmund's College, Universidade de Cambridge

 

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