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Edição Nº 40- 31 de julho de 2003
Artigo
A ARTE D(N)OS NEGÓCIOS

*Gunter Axt

Falando há alguns anos ao Business Commitee for the Arts sobre a convergência entre cultura e negócios, Eli Broad, Chairman da SunAmerica Inc., um dos maiores grupos financeiros da costa oeste dos EUA, disse admirar muito as pessoas que têm uma visão própria do mundo, que pensam além do seu umbigo e da sua esquina, e que são capazes de criar um dispositivo eficaz e de valor, correspondente a esta visão. Arrematou dizendo que os artistas, muito mais do que executivos talentosos, têm esta característica, atribuindo ao sucesso da SunAmerica uma receita que procurou trazer a arte para o cotidiano empresarial.

Conhecido colecionador privado de arte moderna e contemporânea, Broad iniciou uma coleção corporativa animado por um sentimento de responsabilidade cívica para com os milhares de jovens artistas californianos, que necessitavam de suporte no princípio de suas carreiras. Assim, ao invés de investir 10 milhões de dólares em meia dúzia de obras consagradas a serem expostas no lobby, preferiu destinar um milhão à aquisição de várias peças de artistas emergentes. A extensão da coleção constituída obrigou os curadores a instalar as obras em cada nicho de trabalho, de sorte que todas as áreas comuns do prédio corporativo passaram a ter arte nas paredes. Os curadores cuidaram, também, de conferir um sentido à exposição, contextualizando a produção individual, e, como se tratavam de artistas locais, a informação tornou-se logo alvo de interesse para empregados e visitantes.

Cumprida sua missão cívica, Broad percebeu haver descoberto um investimento lucrativo, o que é importante, pois se presume que todo o empreendimento capitalista invista em atividades das quais acredita auferir algum retorno. E este retorno começou sem medida pelos números. Por exemplo, cinco minutos de discussão entre dois executivos sobre os motivos que os levavam a gostar ou não de uma determinada obra revelaram-se fundamentais para quebrar o gelo e suscitar laços subjetivos que seriam mais tarde úteis e mesuráveis quando os dois se reencontrassem na execução de algum projeto. Este ponto de convergência é estratégico para o sucesso de uma companhia, ainda que não seja tão óbvio quanto a redução de custos operacionais ou o aumento da eficiência produtiva. Uma companhia não pode ter sucesso sem um time engajado e sem boas idéias. Neste caso, a arte foi um canal por meio do qual executivos, empregados e parceiros passaram a interagir experiências subjetivas, que normalmente estariam afastadas do ambiente de trabalho, o que propiciou uma perspectiva mais rica, humanista e plural sobre cada projeto da companhia. Enfim, incorporando a arte no ambiente de trabalho, Broad proporcionou aos seus empregados a oportunidade de explorar uma nova arena, dando-lhes a chance de considerar idéias nem sempre familiares, o que trouxe resultados inesperados para o trabalho. O interesse pela arte expôs o grupo a novos conceitos e novas pessoas que estariam inacessíveis se os olhares não transcendessem os monitores e os documentos sobre as mesas.

Por outro lado, o investimento na comunidade também impactou a performance da companhia. Uma corporação financeira como a SunAmerica certamente é julgada quanto a sua capacidade de manejar hábil e responsavelmente os investimentos de seus clientes. Broad constatou serem os clientes mais sensíveis à manutenção de relações comerciais duradouras quando capazes de identificar o lado humano e comunitário do seu agente.

Benefícios também foram percebidos em torno da imagem da companhia junto à comunidade empresarial. O produto da SunAmerica mesclava doses de agressividade e criatividade com credibilidade e prudência. A coleção corporativa ajudou a comunicar esta imagem, explicitando a qualquer um que atravessasse as portas da sede não se tratar aquela de uma típica companhia de serviços financeiros.

E se expandíssemos esta experiência pontual de sucesso para um nível mais amplo? Para aqueles que ainda persistirem no entendimento de que as instituições culturais não fazem mais do que consumir recursos dos impostos dos contribuintes, provendo quando muito um retorno supérfluo à sociedade, especialmente dispensável em países assolados pela desigualdade social, como o nosso, registramos que elas encerram uma dimensão econômica que vai muito além do seu papel cultural, cuja relevância já é em si perceptível aos espíritos mais esclarecidos. Mantendo-nos no ambiente social da SunAmerica Inc., reproduzo cálculos do California Arts Council que estimou em 300 milhões de dólares a soma gasta direta e indiretamente por turistas culturais de fora daquele estado no ano de 1992, consumo que gerou mais de 4 mil empregos no estado, em museus, teatros, hotéis, restaurantes, etc. A pesquisa demonstrou ainda que organizações não governamentais voltadas para o campo cultural adicionaram em 1992 dois bilhões de dólares à economia, criando quase 120 mil empregos e garantindo 77 milhões de dólares em rendimentos de impostos estaduais e municipais.

Haverá quem diga ser esta realidade fantástica somente acessível a economias altamente desenvolvidas. Vejamos: quando André Malraux, o primeiro Ministro da Cultura da França, estruturou os serviços do novo Ministério, procedeu a um amplo mapeamento dos bens culturais do País, integrou a política cultural, fundou novas instituições e desenvolveu incentivos – dos quais o mais notável talvez seja a Lei da Dação, aprovada em 1968 – enfrentou fortes oposições nas áreas econômica e social do Governo, que questionaram gastos não prioritários e denunciaram os supostos prejuízos da chamada renúncia fiscal. Hoje, entretanto, quem visita Paris fica estonteado face à multidão de turistas acotovelando-se nos museus, galerias, teatros, etc. E, quem prestar a atenção nas plaquinhas indicativas junto às obras de arte, notará, por exemplo, que vários salões do Museu D’Orsay, ou, ainda, todo o Museu Picasso, são recheados de peças adquiridas em dação, instrumento pelo qual pode-se pagar o imposto de heranças e transmissão de propriedades por meio da dação de obras de arte com alto valor cultural agregado. Este simples instituto, tão criticado nos anos 1960, vitaminou enormemente o turismo cultural, incrementou o mercado de galerias e de críticos de arte, garantiu a manutenção dos bens culturais no País, produziu um acervo de valor incalculável e trouxe para as declarações de imposto de renda um amplo leque de bens móveis – tais como jóias, quadros, esculturas, livros, mobiliário e tapetes – que até então eram sub-declarados.

Outro exemplo, mais recente e não menos impressionante, pode ser divisado em Barcelona, que há 20 anos não passava de uma cidade pitoresca encravada na periferia subdesenvolvida da Europa e que, hoje, converteu-se em uma referência cultural para o mundo. Nesta cidade, lideranças políticas reuniram empresários, gestores culturais e turismólogos de forma a traçar uma estratégica orgânica e de longo prazo para o desenvolvimento cultural do município, catalisando uma inserção altamente lucrativa no mercado capitalista global.
Finalmente, não podemos deixar de registrar que os norte-americanos, sempre tão pragmáticos, percebendo o dinamismo do campo cultural e as múltiplas possibilidades de uma aliança estratégica entre a arte e os negócios, desenvolveram um comitê empresarial para as artes, com o objetivo específico de estreitar a conexão entre esses termos. Não menos perspicaz, a Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Buenos Aires fundou, em 1997, o Observatório Cultural, com o fim de reunir dados sobre o campo cultural de forma a subsidiar estratégias técnicas de gestão cultural e de desenvolvimento econômico.

Se isto foi possível em Paris, em Barcelona em Los Angeles e em Buenos Aires, porque parece tão inacessível ao Brasil ou a Porto Alegre? Parece-me que o problema maior é de falta de vontade política, pela qual a responsabilidade certamente recai sobre a sucessão de governantes nem sempre esclarecidos, mas também sobre os eleitores, os empresários e os formadores de opinião, incapazes de cobrar de seus governantes respostas objetivas para incentivar o desenvolvimento de um mercado potencialmente tão rico. O preço da nossa percepção limitada pagamos na moeda do subdesenvolvimento e da perda de oportunidades altamente lucrativas. Nunca é tarde, entretanto, para mudar esta realidade. E, em matéria de transformações rápidas de mercado, o Brasil já deu demonstrações de competência. Haja vista o mercado da moda e da alta costura, hoje uma realidade no eixo Rio-São Paulo, mas que há dez anos não passava de um horizonte mirífico.
Está de parabéns o IEE pela iniciativa de chamar a atenção para a necessidade de reflexão entre cultura e desenvolvimento econômico.


*Historiador e empresário

 

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