A ARTE D(N)OS NEGÓCIOS
*Gunter Axt Falando há
alguns anos ao Business Commitee for the Arts sobre a convergência
entre cultura e negócios, Eli Broad, Chairman da SunAmerica
Inc., um dos maiores grupos financeiros da costa oeste dos
EUA, disse admirar muito as pessoas que têm uma visão
própria do mundo, que pensam além do seu umbigo
e da sua esquina, e que são capazes de criar um dispositivo
eficaz e de valor, correspondente a esta visão. Arrematou
dizendo que os artistas, muito mais do que executivos talentosos,
têm esta característica, atribuindo ao sucesso
da SunAmerica uma receita que procurou trazer a arte para
o cotidiano empresarial.
Conhecido colecionador privado de arte moderna e contemporânea,
Broad iniciou uma coleção corporativa animado
por um sentimento de responsabilidade cívica para com
os milhares de jovens artistas californianos, que necessitavam
de suporte no princípio de suas carreiras. Assim, ao
invés de investir 10 milhões de dólares
em meia dúzia de obras consagradas a serem expostas
no lobby, preferiu destinar um milhão à aquisição
de várias peças de artistas emergentes. A extensão
da coleção constituída obrigou os curadores
a instalar as obras em cada nicho de trabalho, de sorte que
todas as áreas comuns do prédio corporativo
passaram a ter arte nas paredes. Os curadores cuidaram, também,
de conferir um sentido à exposição, contextualizando
a produção individual, e, como se tratavam de
artistas locais, a informação tornou-se logo
alvo de interesse para empregados e visitantes.
Cumprida sua missão cívica, Broad percebeu
haver descoberto um investimento lucrativo, o que é
importante, pois se presume que todo o empreendimento capitalista
invista em atividades das quais acredita auferir algum retorno.
E este retorno começou sem medida pelos números.
Por exemplo, cinco minutos de discussão entre dois
executivos sobre os motivos que os levavam a gostar ou não
de uma determinada obra revelaram-se fundamentais para quebrar
o gelo e suscitar laços subjetivos que seriam mais
tarde úteis e mesuráveis quando os dois se reencontrassem
na execução de algum projeto. Este ponto de
convergência é estratégico para o sucesso
de uma companhia, ainda que não seja tão óbvio
quanto a redução de custos operacionais ou o
aumento da eficiência produtiva. Uma companhia não
pode ter sucesso sem um time engajado e sem boas idéias.
Neste caso, a arte foi um canal por meio do qual executivos,
empregados e parceiros passaram a interagir experiências
subjetivas, que normalmente estariam afastadas do ambiente
de trabalho, o que propiciou uma perspectiva mais rica, humanista
e plural sobre cada projeto da companhia. Enfim, incorporando
a arte no ambiente de trabalho, Broad proporcionou aos seus
empregados a oportunidade de explorar uma nova arena, dando-lhes
a chance de considerar idéias nem sempre familiares,
o que trouxe resultados inesperados para o trabalho. O interesse
pela arte expôs o grupo a novos conceitos e novas pessoas
que estariam inacessíveis se os olhares não
transcendessem os monitores e os documentos sobre as mesas.
Por outro lado, o investimento na comunidade também
impactou a performance da companhia. Uma corporação
financeira como a SunAmerica certamente é julgada quanto
a sua capacidade de manejar hábil e responsavelmente
os investimentos de seus clientes. Broad constatou serem os
clientes mais sensíveis à manutenção
de relações comerciais duradouras quando capazes
de identificar o lado humano e comunitário do seu agente.
Benefícios também foram percebidos em torno
da imagem da companhia junto à comunidade empresarial.
O produto da SunAmerica mesclava doses de agressividade e
criatividade com credibilidade e prudência. A coleção
corporativa ajudou a comunicar esta imagem, explicitando a
qualquer um que atravessasse as portas da sede não
se tratar aquela de uma típica companhia de serviços
financeiros.
E se expandíssemos esta experiência pontual
de sucesso para um nível mais amplo? Para aqueles que
ainda persistirem no entendimento de que as instituições
culturais não fazem mais do que consumir recursos dos
impostos dos contribuintes, provendo quando muito um retorno
supérfluo à sociedade, especialmente dispensável
em países assolados pela desigualdade social, como
o nosso, registramos que elas encerram uma dimensão
econômica que vai muito além do seu papel cultural,
cuja relevância já é em si perceptível
aos espíritos mais esclarecidos. Mantendo-nos no ambiente
social da SunAmerica Inc., reproduzo cálculos do California
Arts Council que estimou em 300 milhões de dólares
a soma gasta direta e indiretamente por turistas culturais
de fora daquele estado no ano de 1992, consumo que gerou mais
de 4 mil empregos no estado, em museus, teatros, hotéis,
restaurantes, etc. A pesquisa demonstrou ainda que organizações
não governamentais voltadas para o campo cultural adicionaram
em 1992 dois bilhões de dólares à economia,
criando quase 120 mil empregos e garantindo 77 milhões
de dólares em rendimentos de impostos estaduais e municipais.
Haverá quem diga ser esta realidade fantástica
somente acessível a economias altamente desenvolvidas.
Vejamos: quando André Malraux, o primeiro Ministro
da Cultura da França, estruturou os serviços
do novo Ministério, procedeu a um amplo mapeamento
dos bens culturais do País, integrou a política
cultural, fundou novas instituições e desenvolveu
incentivos – dos quais o mais notável talvez
seja a Lei da Dação, aprovada em 1968 –
enfrentou fortes oposições nas áreas
econômica e social do Governo, que questionaram gastos
não prioritários e denunciaram os supostos prejuízos
da chamada renúncia fiscal. Hoje, entretanto, quem
visita Paris fica estonteado face à multidão
de turistas acotovelando-se nos museus, galerias, teatros,
etc. E, quem prestar a atenção nas plaquinhas
indicativas junto às obras de arte, notará,
por exemplo, que vários salões do Museu D’Orsay,
ou, ainda, todo o Museu Picasso, são recheados de peças
adquiridas em dação, instrumento pelo qual pode-se
pagar o imposto de heranças e transmissão de
propriedades por meio da dação de obras de arte
com alto valor cultural agregado. Este simples instituto,
tão criticado nos anos 1960, vitaminou enormemente
o turismo cultural, incrementou o mercado de galerias e de
críticos de arte, garantiu a manutenção
dos bens culturais no País, produziu um acervo de valor
incalculável e trouxe para as declarações
de imposto de renda um amplo leque de bens móveis –
tais como jóias, quadros, esculturas, livros, mobiliário
e tapetes – que até então eram sub-declarados.
Outro exemplo, mais recente e não menos impressionante,
pode ser divisado em Barcelona, que há 20 anos não
passava de uma cidade pitoresca encravada na periferia subdesenvolvida
da Europa e que, hoje, converteu-se em uma referência
cultural para o mundo. Nesta cidade, lideranças políticas
reuniram empresários, gestores culturais e turismólogos
de forma a traçar uma estratégica orgânica
e de longo prazo para o desenvolvimento cultural do município,
catalisando uma inserção altamente lucrativa
no mercado capitalista global.
Finalmente, não podemos deixar de registrar que os
norte-americanos, sempre tão pragmáticos, percebendo
o dinamismo do campo cultural e as múltiplas possibilidades
de uma aliança estratégica entre a arte e os
negócios, desenvolveram um comitê empresarial
para as artes, com o objetivo específico de estreitar
a conexão entre esses termos. Não menos perspicaz,
a Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade
de Buenos Aires fundou, em 1997, o Observatório Cultural,
com o fim de reunir dados sobre o campo cultural de forma
a subsidiar estratégias técnicas de gestão
cultural e de desenvolvimento econômico.
Se isto foi possível em Paris, em Barcelona em Los
Angeles e em Buenos Aires, porque parece tão inacessível
ao Brasil ou a Porto Alegre? Parece-me que o problema maior
é de falta de vontade política, pela qual a
responsabilidade certamente recai sobre a sucessão
de governantes nem sempre esclarecidos, mas também
sobre os eleitores, os empresários e os formadores
de opinião, incapazes de cobrar de seus governantes
respostas objetivas para incentivar o desenvolvimento de um
mercado potencialmente tão rico. O preço da
nossa percepção limitada pagamos na moeda do
subdesenvolvimento e da perda de oportunidades altamente lucrativas.
Nunca é tarde, entretanto, para mudar esta realidade.
E, em matéria de transformações rápidas
de mercado, o Brasil já deu demonstrações
de competência. Haja vista o mercado da moda e da alta
costura, hoje uma realidade no eixo Rio-São Paulo,
mas que há dez anos não passava de um horizonte
mirífico.
Está de parabéns o IEE pela iniciativa de chamar
a atenção para a necessidade de reflexão
entre cultura e desenvolvimento econômico.
*Historiador e empresário

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