Cultura e desenvolvimento econômico
*Olavo de Carvalho
Se
a cultura fosse um efeito da economia, como pensava Marx,
a pergunta sobre as condições culturais propícias
ao desenvolvimento não faria o menor sentido: o processo
econômico, a cada passo, produziria as condições
culturais de que necessitasse, e elas, passivamente, se limitariam
a expressar um estado de coisas sobre o qual não exerceriam,
em retorno, grande influência.
Foi Max Weber quem inverteu a equação marxista,
mostrando que as mudanças culturais -- especialmente
morais e religiosas -- muitas vezes se antecipam às
econômicas e as determinam.
A aplicação dessa hipótese às
origens do capitalismo -- para explicá-las pelo influxo
da ética protestante -- acabou se revelando mais difícil
do que parecia, e para tirar a dúvida Weber mergulhou
numa investigação abrangente das relações
entre religião, moral, economia e sociedade, donde
saíram os brilhantes estudos sobre “O Judaísmo
Antigo”, “As Religiões da China”
e “As Religiões da Índia”. As análises
parciais deveriam convergir numa teoria geral segundo os princípios
esboçados em “Economia e Sociedade”, mas
Weber morreu antes de completá-la.
Quatro décadas de discussões não bastaram
para resolver o problema, mas fixaram na imaginação
das classes letradas, como um lugar-comum, a associação
referida no título “A Ética Protestante
e o Espírito do Capitalismo”.
Na década de 70, o cientista político e ex-ministro
francês da Justiça, Alain Peyrefitte, defendeu
com profusão de provas e documentos a tese de que o
protestantismo não fomentara o desenvolvimento capitalista
em razão do seu conteúdo moral, como supusera
Weber, mas sim pela forma da organização das
suas igrejas. Desprovidos de uma autoridade central como a
do Papado, os grupos religiosos independentes encontraram
na convivência igualitária, no livre comércio
e na fidelidade aos mandamentos evangélicos, interpretados
segundo a consciência de cada qual, os princípios
de uma nova ordem social e econômica que floresceu no
capitalismo moderno. Nos países católicos, inversa
e complementarmente, a causa da paralisia econômica
não foi a moral da Igreja, mas a centralização
burocrática. O Papado, assustado com a rebelião
protestante, atormentado de suspeitas contra tudo e contra
todos, e ao mesmo tempo fortalecido pela súbita ascensão
das monarquias católicas que as navegações
haviam enriquecido, fechou-se numa hierarquia rígida
e numa reivindicação de poder absoluto, eliminando
o que restava do pluralismo medieval e sufocando a iniciativa
de auto-organização da sociedade. Seu exemplo
não demorou a ser seguido pelas monarquias sob a sua
influência, especialmente Portugal e Espanha. O sonho
de Sto. Tomás, de uma sociedade cristã de homens
livres, unidos tão-somente como membros do corpo místico
de Cristo, acabou-se realizando entre os “infiéis”
protestantes.
Max Weber, em suma, ouvira o galo cantar sem saber onde.
Três elementos foram decisivos para o bom resultado
econômico do capitalismo: (a) a liberdade de auto-organização;
(b) a homogeneidade moral, resultado da fidelidade geral ao
Evangelho (tanto mais estrita porque, não havendo autoridade
formal superior, a Bíblia se tornava, diretamente,
o critério comum para a arbitragem de todas as disputas);
(c) o ambiente de confiança, honradez e seriedade criado
pelos dois fatores anteriores. Em contrapartida, o autoritarismo
papal e monárquico criou sociedades anêmicas,
desfibradas, intimidadas e corrompidas pela subserviência
à burocracia onipotente.
Nas modernas ditaduras nazista, fascista e socialista, a
centralização burocrática foi levada
às últimas conseqüências, criando
o totalitarismo propriamente dito, o projeto da sociedade
inteiramente controlada e planejada. Essa monstruosidade,
perto da qual os monarcas absolutos e os papas da Renascença
parecem anjos de tolerância, criou novas formas de corrupção
e degradação verdadeiramente demoníacas,
transformando cidadãos pacatos em militantes furiosos,
executores de ordens macabras que repugnam à consciência
humana. Herdeiros e cúmplices de crueldades sem fim,
os militantes revolucionários condenam o capitalismo
com uma indignação histérica que nada
tem a ver com o verdadeiro sentimento moral, mas é
apenas um disfarce neurótico destinado a sufocar a
consciência de culpas superiores à capacidade
de arrependimento do homem comum.
Em todos os regimes totalitários, o progresso inicial,
forçado na base do terror e do trabalho escravo, acaba
sempre cedendo o passo à anarquia mal disfarçada,
à corrupção endêmica, à
paralisia econômica e à derrota inevitável.
O mesmo, em escala menor mas não menos notável,
ocorre nas ditaduras, semiditaduras e pseudo-democracias do
Terceiro Mundo, todas infectadas do vírus estatizante,
centralizador e burocrático do nazismo, do fascismo
e do socialismo.
Se o “ethos” que favorece o desenvolvimento capitalista
é baseado na síntese da liberdade político-econômica
com a homogeneidade dos códigos morais, resultando
na criação de um ambiente de confiança
e responsabilidade, o fator principal que leva à paralisia
é, na Renascença como hoje, a cultura da suspeita
universal, da acusação projetiva, do ressentimento
e do medo, que induz a população a apegar-se
neuroticamente à autoridade -- seja a autoridade do
Estado, seja a dos líderes revolucionários que
professam destruí-la.
Uma cultura que destrói a fé antiga produz
a anarquia moral que desembocará, fatalmente, na ascensão
de uma autoridade ainda mais temível do que todas as
anarquias.
Uma cultura que destrói a confiança dos homens
uns nos outros convoca à existência o Grande
Inquisidor que arbitrará todas as relações
humanas, interpondo-se entre patrão e empregado, marido
e esposa, pais e filhos.
Uma cultura que não busca a síntese do rigor
moral e da liberdade política extingue ao mesmo tempo
a moral e a liberdade.
Toda riqueza construída com base nessa cultura é
de obtenção dolorosa e duração
efêmera.
A condição sine qua non da prosperidade é
a total destruição dessa cultura.
*

|