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Edição Nº 42- 22 de setembro de 2003
Entrevista
"O DNA do brasileiro é empreendedor"

Entrevista com: Carlos Abbud

Nascido em São Paulo, Abbud cursou a Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas. Trabalha na McCann-Erickson, a maior agência de publicidade do mundo há mais de 15 anos. Antes de unir-se a McCann, foi gerente de produtos da Gessy Lever, São Paulo Alpargatas e da Heublein. Foi também diretor de marketing da Max Factor Cosméticos e dos Laboratórios Abbott. Iniciou na McCann como diretor de atendimento a clientes. Após quatro anos, foi convocado para criar a Universal Interpublic, segunda agência da McCann, na qual foi gerente geral. Foi transferido em 1995 para o Rio de Janeiro, e por três anos comandou as operações da Coca-Cola na McCann. Hoje, exerce as funções de gerente geral da McCann para a região Sul e é vice-presidente da McCann Brasil, sediada em Porto Alegre, onde atua há cinco anos. Na área social, é diretor da Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), faz parte do Conselho de Cidadania da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul e do Comitê Executivo do Hospital da Criança Santo Antônio da Santa Casa de Porto Alegre. Leia sobre a visão de Carlos Abbud sobre o tema do empreendedorismo nesta entrevista realizada durante o V Fórum Universidade-Empresa, realizado em Porto Alegre, no mês de agosto.

Equipe Editorial: O que é empreendedorismo na sua visão? Qual a importância das pessoas serem empreendedoras?
Carlos Abbud: O DNA do brasileiro é empreendedor. Temos 14% da nossa população empreendedora, com negócios próprios. Isso é provocado pela nossa situação econômica. Mas é bom para um país que movimenta a economia formalmente ou informalmente. O exemplo é um empreendedor que era camelô no Rio de Janeiro, vendia doces e hoje ministra palestras a R$5.000,00 com sua atividade e com a atitude de empreendedor. Isso mostra como o país está sedento em ouvir sobre este tema. O empreendedor é ativo, arrojado, é o cara criativo que vai buscar seu próprio negócio. Aqui, no Rio Grande do Sul, temos grandes exemplos de empreendedores que começaram em galpões e oficinas e, hoje, são marcas fortes como Randon, Gerdau e Tramontina. O Estado é riquíssimo em exemplos.

Equipe Editorial: O empreendedorismo está diretamente ligado a economia do país?
Carlos Abbud: O empreendedorismo está intimamente ligado à atitude da pessoa, à vontade de trazer segurança familiar e fugir do emprego. Quando falo em fugir do emprego, me refiro a um fenômeno mundial que hoje as pessoas estão tentando reduzir seus custos. Para isso, estão terceirizando serviços. Eu vejo nisso uma chance enorme para um crescimento maior do empreendedorismo no Brasil. Se você pegar o meu caso, que já atingi um nível executivo alto, o imposto de renda nos come. Quanto mais alto o salário, mais cara fica essa pessoa para a empresa, pois custa 100% a mais com os encargos sociais. Compensa para a empresa contratar consultores, terceirizar serviços. Eu vejo o empreededorismo como a grande alavanca de um país. O Brasil tem essa vocação, tem esse DNA.

Equipe Editorial: O Brasil é líder no ranking de empreendedorismo por necessidade, ou seja, pela falta de outras opções para a sobrevivência. O desemprego desenvolve o espírito empreendedor?
Carlos Abbud: O brasileiro é criativo e lutador. Ele vai para a briga. Ele luta pelo seu negócio. Busca novidades. Vende CDs contrabandeados, mas luta pela sua família e pelo seu sustento. Cria e desenvolve. Temos exemplos de pessoas com mais de 80 anos que são empreendedoras. O exemplo de seu Abraham Kasinsky, que levou um golpe em sua empresa, a Cofap, e, com 80 anos, montou uma fábrica de bicicletas que é um sucesso.

Equipe Editorial: A pessoa nasce empreendedora, aprende em casa, ou desenvolve ao longo da vida, através de experiências?
Carlos Abbud: Eu acredito que o berço ajuda muito. O berço e a escola. A educação é cultura. Se você vem de uma família disciplinada e trabalhadora, será mais fácil. Sou paulista, estou aqui há seis anos. O Rio Grande do Sul me surpreendeu com o poder de trabalho e disciplina. É por isso que aqui tem muitas empresas de exemplo.

Equipe Editorial: Como está o mercado publicitário no Sul?
Carlos Abbud: O Rio Grande tem 180 agências de propaganda. Isso é assustador. É uma crise para o mercado. Estamos com 14 faculdades de comunicação no Estado. Cada faculdade forma 100 profissionais, ou seja, 14.000 formandos no mercado de trabalho por ano. Aqueles que são empreendedores compram um computador e abrem uma agência. Essa é a razão desta quantidade enorme de agências de publicidade. Para a qualidade do mercado, isso não é bom. Eu acredito que o empreendedor, para ter sucesso, deve ter o mínimo de experiência. Tem que aprender a por o umbigo no balcão a criar calo, saber onde estão os espinhos da vida, para poder escapar deles e ter sucesso. O fato de ser só um lutador não basta. Aqueles que são lutadores e com uma experiência de sucesso são poucos. Existem muitos exemplos de empreendedores que começaram fracassando. No entanto, a persistência é muito importante. Não abandonar a meta. Não abandonar o desejo de ter seu próprio negócio.

Equipe Editorial:
O empreendedor tem que, necessariamente, ter o seu próprio negócio, ou a pessoa pode empreender em outra empresa?
Carlos Abbud: O meu ponto de vista é de publicitário, que é um pouco crítico neste ponto. Como publicitário, eu não acredito muito nisso. Ser empreendedor numa empresa que não é a sua, como executivo, pode dar certo, se você for o filho do dono. Nas organizações, cada dia é um dia diferente. O seu passado não existe. Eu trabalhei em grandes empresas e em grandes multinacionais. Trabalhei com publicidade, que é o meu último emprego, onde estou há 18 anos. Sou cético neste ponto. Não acredito que o empreendedorismo seja valorizado. Ele só é valorizado quando dá resultado. Alguns meses sem resultados numa empresa, e sua situação torna-se crítica.

Equipe Editorial: Ser empreendedor é um critério de seleção de pessoal nas empresas?
Carlos Abbud: Quando entrevisto um candidato e percebo que ele tem um perfil empreendedor, tenho certeza de que em um ano ou dois eu perco este funcionário. O empreendedor quer independência. Esta é uma característica muito forte dele.

Equipe Editorial: Qual a sua mensagem para os estudantes que vão ler esta entrevista?
Carlos Abbud: Apesar de já ter chegado aos 50 anos, continuo com desejo de ter o meu empreendimento. Com todo o status que tenho, o bom salário, não abandono essa idéia. Eu só não fui empreendedor mais cedo por covardia. Mas um dia isso vai acontecer. Pretendo estimular estes jovens a serem empreendedores.

Equipe Editorial: O empreendorismo é uma saída para o país?
Carlos Abbud: Não tenho a mínima dúvida quanto a isso. Acho que o Brasil cresceu por causa do empreendedorismo. Podemos dizer que o Brasil cresceu por causa da agricultura, por causa de suas indústrias, sem dúvida. Mas, muitas dessas indústrias foram construídas por empreendedores. Hoje, a General Motors, de Gravataí, praticamente não tem funcionários. A montagem é feita pelos empreendedores, enquanto a mão de obra é terceirizada. Isso é uma realidade. O empreendedorismo está alavancando esse país.

Entrevista realizada com exclusividade para a Revista Leader.


 

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