"Estamos permanentemente reinventado a empresa para enfrentar o atual cenário brasileiro"
Entrevista
com: Rodrigo Vontobel
Gaúcho,
nascido em Porto Alegre, Rodrigo Vontobel é formado em Economia.
Iniciou sua vida profissional como auditor externo na Price
Waterhouse. Em 1985, ingressou nos negócios da família, o
Grupo Vonpar (fabricante da Coca-Cola), ocupando diversas
funções até chegar ao cargo atual de superintendente industrial.
Paralelamente às atividades no Grupo Vonpar, foi Diretor da
Fiergs/Ciergs por duas gestões e, atualmente, participa da
Diretoria da Federasul da IV Bienal do Mercosul, além de ser
sócio honorário do Instituto de Estudos Empresarias (IEE).
Nesta entrevista realizada com exclusividade para a Revista
Leader, Rodrigo Vontobel fala sobre o empreendedorismo, tema
principal do V Fórum Universidade-Empresa, realizado em Porto
Alegre no mês de agosto. Confira.
Equipe Editorial: O que é ser empreendedor?
Rodrigo Vontobel: De uma forma geral, o empreendedor
é aquela pessoa que está preocupada em construir o seu futuro.
Quer fazer algo diferente e a diferença. Mas, ao mesmo tempo,
ser empreendedor está um pouco em cada um de nós. Está no
líder de uma empresa, assim como num colaborador simples.
Dentro daquela esfera de atuação, daquela função que lhe é
atribuída, ele pode ser um empreendedor no universo de sua
atuação. Melhorando processos, criando novidades, gerando
economia, agregando valor para a companhia no seu âmbito de
atuação.
Equipe Editorial: Ser empreendedor está
vinculado a ter o seu próprio negócio?
Rodrigo Vontobel: Acredito ser essa a idéia
inicial. O primeiro impacto da palavra é esse. No entanto,
se o empreendedor for somente o dono da empresa, seria como
ter só 'Romários' numa Seleção Brasileira. Com essa visão,
não existiria espaço no mundo para todos serem empreendedores.
Existem empreendedores atuando em diversas faixas. Existe
aquele que vai ser o rompedor, aquele que cria um negócio,
que inova. Na minha opinião, um funcionário deve ser empreendedor
dentro de sua atuação. De alguma maneira, se imbuindo no espírito
de ser dono daquilo que está fazendo. Nesse sentido, qualquer
um pode ser empreendedor. Criando valores, alterando processos,
melhorando a qualidade, fazendo algo diferente, fazendo a
diferença.
Equipe Editorial: Para ser empreendedora
a pessoa deve nascer com este espírito ou pode desenvolvê-lo
ao longo da vida?
Rodrigo Vontobel: Algumas pessoas nascem
com este dom. Essas têm o empreendedorismo mais aparente e
desenvolvido de uma forma natural. Porém, existem outras que
poderão aprender e desenvolver isso um pouco. Entretanto,
nunca terão um grau elevado, ao ponto de ser o capitão de
uma indústria ou um inovador, mas dentro de sua capacidade
e limitação poderá empreender.
Equipe Editorial: O Brasil é líder no
ranking de empreendedorismo por necessidade, ou seja, pela
falta de outras opções para a sobrevivência. O que pode ser
feito para converter essa situação? Como o senhor vê o empreendedorismo
no Brasil, é uma fuga? Se houvesse emprego para todo mundo
existiria empreendedor?
Rodrigo Vontobel: Talvez essa situação que
o país vive, de empreender por necessidade, propicie gerar
uma escola prática que poucos países tenham igual. Se o Brasil
é o campeão em empreendedorismo, seja pelo motivo que for,
eu não gostaria de perder essa posição. Se é por falta de
oportunidade, é uma lástima. Mas há um lado positivo, de gerar
nas pessoas uma visão de fazer por si, buscar, correr atrás.
Dessas, alguns terão sucesso, agregando valor para o país
e para a sociedade, empregando aqueles que, na tentativa de
serem empreendedores, ficaram à beira do caminho.
Equipe Editorial: A Vonpar é uma empresa
familiar. Como é que se transfere empreendedorismo entre gerações?
Como desenvolver o espírito empreendedor em empresas familiares?
Rodrigo Vontobel: Na minha visão, são dois
momentos e duas formas diferentes de ser empreendedor. Meu
pai e meu tio, quando começaram o negócio, foram desbravadores,
conquistadores, sofreram para fazer. Era outro momento, outra
história de Brasil. Agora, temos uma outra demanda. Na verdade,
estamos permanentemente reinventando a empresa para o que
vem pela frente. É dessa forma que exercemos nosso empreendedorismo,
tendo que constantemente mudar a companhia no atual cenário
brasileiro e no mundo. O mercado global é muito mais complexo,
mais difícil, menos romântico e mais agressivo. Por isso,
digo que são maneiras diferentes de ser empreendedor.
Equipe Editorial: Hoje em dia, ao ingressar
em uma universidade, o estudante se depara com diversas dúvidas
relativas ao seu futuro, sejam dúvidas de âmbito profissional,
pessoal ou acadêmico, ou ainda quanto a ideologias, política
e demais fatores econômicos que possuem uma influência direta
no futuro da sociedade. O que um jovem deve saber sobre empreendedorismo
para poder abrir sua empresa?
Rodrigo Vontobel: Em primeiro lugar, perseverança
é fundamental em qualquer negócio, porque os obstáculos são
muitos. A segunda coisa: nem todos serão empreendedores. Alguns
terão seu próprio negócio, outros serão funcionários, alguns
executivos, e assim por diante. Mas, em todos os casos, eu
diria que o importante é se imbuir do espírito de dono daquilo
que está fazendo, dar de si e, com isso, fazer a diferença
na execução.
Equipe Editorial: Na hora da seleção
o espírito empreendedor é avaliado?
Rodrigo Vontobel: Pessoalmente, prefiro contratar
pessoas empreendedoras. Mas seria um pouco ilusório pensar
que, num processo de seleção, vamos conseguir definir quem
é empreendedor e quem não é. Daqui a pouco tem um candidato
com uma personalidade bastante agressiva e positiva, mas pode
não passar disso. Um Bill Gates da vida é um empreendedor,
provavelmente não seria o tipo de pessoa combativa, que num
processo de seleção fosse considerado agressivo e empreendedor.
Acho que é quase ilusão podermos identificar quem é quem num
curto processo de seleção. Acredito que é oferecendo oportunidades
dentro da empresa que você vai saber quem é quem.
Entrevista realizada com exclusividade para a Revista
Leader.

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