Liberdade, Estado e Terceiro Setor
*Pedro Chagas
Frederic
Bastiat propôs um prêmio para a pessoa que conseguisse
definir o que é o Estado. Afinal de contas, o que ele
é? Onde está? O que deveria fazer?
Se perguntarmos a qualquer pessoa na rua, não faltarão
definições contraditórias e paradoxais.
Entretanto, uma coisa é certa: nas costas do Estado
em pleno século XXI, todos ainda colocarão uma
carga de tarefas e atribuições bastante extensa.
Parece ser da própria natureza humana tratar de exteriorizar
suas responsabilidades individuais, disso resultando programas
e utopias a cargo do Estado realizar, sempre às custas
de outros indivíduos.
São tantos os interesses, tantas as coisas por fazer,
que o próprio Estado não sabe por onde começar
ou para que lado ir. Mas qualquer que seja a lista de tarefas
que acabe sendo atribuída ao Estado, com certeza ele
vai querer mais e mais recursos.
Com efeito, talvez o fenômeno mais preocupante herdado
do século XX tenha sido o inchaço do Estado
em detrimento das demais esferas sociais, resultando em um
processo de contenção e anestesia da sociedade
civil. A falta de delimitação clara entre o
público e o privado, a politização de
tudo, em suma a falta de definição clara de
qual o papel do Estado, levou as pessoas a se afastarem ainda
mais daquilo que Tocqueville chama de fator democrático.
Talvez na própria causa disso, esteja a semente do
ressurgimento da força da sociedade civil. Isso porque
o atual democratismo finalmente está confessando que
perdeu poder e a autoridade moral de financiar seus serviços
ultrapassados, inferiores, dispensáveis e de baixa
qualidade. Seus bens "públicos" politizados,
seus serviços de "utilidades" públicas
politizadas, seus serviços "sociais" politizados,
seus serviços de autoridade local politizados: todos
devem ser submetidos ao teste do mercado para poderem continuar,
porque aqueles que pagam a conta assim estão reivindicando.
O sistema político do século XXI terá
de ser exercido com a autoridade modesta que represente a
vontade geral, através do respeito e da comunicação
com a sociedade civil. Sem tal ressalva nenhuma autoridade
legal poderá assegurar a obediência popular.
Destarte, o futuro aponta para o recuo do Estado em seu campo
de ação para exclusivamente tratar de garantir
a cada um o que é seu e fazer reinar a justiça
e a segurança. De outro lado, caberá a cada
um de nós assumir uma postura de previdência,
prudência, julgamento, experiência, ordem, economia,
temperança e atividade, nas palavras de Bastiat, como
requisito para fazer frente à responsabilidade que
é a liberdade.
No campo da moral, por sermos todos humanos espelhando nossa
própria existência em nossos semelhantes, e sempre
respeitadas concepções e valores particulares,
temos a liberdade de agir individualmente ou de forma organizada,
leia-se Terceiro Setor, para auxiliar todos aqueles que precisam
de ajuda. No que tange aos custos, os resultados do sistema
compulsório atualmente intermediado pelo perdulário
e incompetente Estado são suficientes para justificar
seu sepultamento, abrindo espaço e recursos para a
eficiência da alocação de contribuições
e atividades voluntárias.
Em termos econômicos, o resultado mais interessante
deste tipo de ação é que as ações
privadas no campo público aliviam a demanda por soluções
através do Estado, e este, por sua vez, tende naturalmente
a aliviar a pressão sobre o órgão mais
sensível do contribuinte: seu bolso.
* Advogado
Presidente do IEE gestão 2001/2002

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