"O Brasil hoje padece das contradições do PT"
Entrevista com:
Denis Rosenfield
O filósofo Denis Rosenfield foi o palestrante no jantar-debate
promovido pelo Instituto de Estudos Empresariais (IEE), no dia
15 de setembro de 2003, no Ritter Hotel, onde falou sobre os
desafios do Governo Lula. Em entrevista exclusiva, ele aborda
questões como Reforma Tributária, Terceiro Setor
e analisa a atual situação econômica do
País.
Equipe Editorial: Qual a sua avaliação
sobre encontros como os que o IEE promove?
Denis Rosenfield: Iniciativas como esta,
promovidas pelo IEE, são extremamente importantes,
pois são jovens empresários que têm preocupações
políticas que dizem respeito à coletividade
e, sobretudo, a forma de organização do Estado.
Iniciativas como a do IEE são da maior importância,
pois os empresários devem se preocupar com o esclarecimento
de idéias. Disso vai depender não só
o destino do País, mas como o das empresas. E, portanto,
da economia do País.
Equipe Editorial: Como o senhor
analisa a atual situação política-econômica
brasileira?
Denis Rosenfield: O que me preocupa muito
na situação atual é que existe uma confusão
enorme de idéias. Liberal, no Brasil, não é
liberal no sentido clássico da palavra, por exemplo.
O liberal brasileiro, o PFL que seria o exemplo mais claro,
apoiou a maior oneração tributária na
história do Brasil, no período Fernando Henrique
Cardoso, no qual a proporção de tributos sobre
o PIB foi de 25% para 37%. Existem outros exemplos na história.
Os liberais brasileiros eram escravocratas. Há um tipo
de absorção nas idéias no Brasil que
as deformam. Tucano aqui também não é
bem social-democrata, embora esteja no nome do partido. Tem-se
um enorme endividamento externo e da carga tributária
no governo Fernando Henrique com pouca repercussão
social. Um partido social-democrata europeu é caracterizado
principalmente pela reordenação social. Um exemplo
mais gritante disso é que temos um serviço de
saúde péssimo e uma educação em
todos os níveis de má qualidade também.
Isso seria uma pauta de um governo social-democrata.
Equipe Editorial: Como o senhor
avalia o Governo atual? E que análise faz do PT em
comparação com os outros Governos?
Denis Rosenfield: O PT, que é
um partido que se diria de esquerda, chega ao poder e assume
a agenda do governo FHC. Alguns se dizem pela mudança,
outros marxistas, e se tornam administradores do mesmo tipo
do governo FHC, porém inferiores, pela ineficiência
administrativa e, sobretudo, pelo viés ideológico.
Há uma ala do PT que, na prática, é social-democrata.
Isso demonstra essa confusão de idéias. Tem
uma que é marxista, trotskista, que defende a revolução,
onde parece que o Muro de Berlim ainda não caiu em
cima da cabeça deles, e se tem uma demagogia enorme
entre estes dois pólos, que oscila entre um e outro.
Parece que a tendência dominante vai pela social-democracia,
mas isso não é dito, o que causa uma confusão
grande do ponto de vista do panorama ideológico brasileiro.
Equipe Editorial: O senhor
acredita que se o governo anterior estivesse no poder, teríamos
uma situação diferente? Qual é o cenário
que o senhor acredita que vá se configurar até
o final do mandato do presidente Lula?
Denis Rosenfield: Primeiro ponto: acredito
que o brasileiro se contenta com pouco. O Brasil está
hoje no mesmo nível que estava no primeiro semestre
do ano passado, antes da ascensão do Lula e do PT nas
pesquisas. Eles colocaram um bode na sala e o tiraram e estão
todos contentes. Nós perdemos um ano. Isso porque o
PT chegou ao poder sem ter idéias claras sobre si mesmo,
prometendo mudanças e tendo um perfil, algumas vezes,
revolucionário. Assustou. Agora passou o susto e estão
todos contentes, descontraídos. Segundo ponto: eu não
vejo que o governo Lula tenha idéias diferentes daquelas
que foram mais ou menos assumidas pelo governo FHC. Recentemente,
o Pedro Malan escreveu um artigo excelente no Estado de São
Paulo ironizando o PT nesse ponto. Ele mostrou, de uma maneira
que achei muito bem feita, como a questão econômica
e política depende de argumentos e de discutir idéias.
O PT não está fazendo isso, está simplesmente
recuperando uma agenda e tem dificuldades em dizer que é
um partido social democrata. Quando o fizer, vai criar uma
cisão interna no partido. Eles estão procurando
evitar isso. Só que o Brasil hoje padece das contradições
do PT.
Equipe Editorial: E em relação
à Reforma Tributária, qual a sua opinião?
Denis Rosenfield: Qual reforma tributária?
(risos) Claro que existem alguns avanços, mas acho
que há um grande estardalhaço para pouco efeito.
Nós sabemos que há desoneração
do Cofins, por exemplo. Há desoneração
da exportação. Isso são medidas absolutamente
importantes. Mas, para isso, não era preciso fazer
um grande alarde sobre a Reforma Tributária. O CPMF,
um dos impostos mais perversos, não mexeram, deixou
de ser provisório e agora é definitivo. Temos
também toda a questão de reelaboração
do ICMS. Enfim, tudo indica que teremos um aumento da carga
tributária. Não seria nem o momento para discutirmos
pacto federativo. Sou extremamente pessimista sobre os resultados
da Reforma Tributária.
Equipe Editorial: Na sua opinião,
qual a importância do Terceiro Setor para as organizações
públicas e privadas?
Denis Rosenfield: Considero bastante importante
as atividades do Terceiro Setor, sobretudo porque elas permitem
hoje redesenhar as esferas de atuação do Estado,
que mostrou-se historicamente ineficaz no País. Estamos
observando na Reforma Tributária um aumento da carga
e um fortalecimento do Estado. Não há discussão
sobre a Reforma do Estado. Mas como fazer uma discussão
sobre Reforma Tributária sem discutir a Reforma do
Estado? Se poderia gastar igual ou menos e produzir melhores
resultados. Mas não. Toda reforma tributária
é feita apenas do ponto de vista de aumento da arrecadação
tributária do Estado, e não se pensa em diminuir
seu peso ou redefinir suas funções. Nesse sentido,
é muito importante o Terceiro Setor porque mostra que
a sociedade pode atuar por si, sem depender do Estado.
Equipe Editorial: Em que nível
o senhor acredita que o Brasil está com relação
ao Terceiro Setor?
Denis Rosenfield: Está engatinhando.
Há uma tendência forte em que todas as pessoas
pedem ao Estado que resolva seus problemas. Por que a sociedade
não seria capaz de resolver seus problemas sem sempre
estar recorrendo ao Estado para qualquer questão que
apareça? Na saúde, por exemplo, com todo o aparato
do SUS, será que não seria possível encontrar
melhor forma de aplicar nossos recursos? Essa questão
poderia ser mais aprofundada e desenvolvida nas mais diferentes
esferas de atuação.
Equipe Editorial: O senhor
acaba de lançar o livro Retratos do Mal. Que reflexões
são apresentadas nesta obra?
Denis Rosenfield: O Retratos do Mal,
publicado pela Jorge Zahar Editor, é um livro que eu
prezo bastante por ter tomado muito tempo de elaboração
e eu me defrontei com um dos conceitos mais difíceis
da filosofia, o conceito de mal. Me perguntei: como podemos
pensar o impensável? Como pensar o injustificável?
E, nesse caso, utilizei como introdução ao livro
o exemplo do terror, o atentado às torres gêmeas
do World Trade Center. Ou seja, como pensar um ato que escapa
de toda e qualquer justificação. Como a razão
pode se debruçar sobre aquilo que atenta contra a própria
razão? Tentei pensar num livro, e espero que seja bem
sucedido, precisamente aquilo que poderia parecer como um
paradoxo, ou seja, como a razão vai pensar a irrazão.
Para isso, busquei o fato do terror contemporâneo, a
questão do genocídio e da dominação
totalitária, que foram três exemplos históricos.
São alguns grandes fatos do Século XX, a dominação
totalitária comunista, o totalitarismo nazista, com
o Holocausto, toquei na questão do genocídio
dos armênios pelos turcos e retomei, no sentido mais
atual, o terror islâmico contemporâneo. Fiz algo
ousado, porque resolvi pensar por mim mesmo. Não fiz
estudo de nenhum autor da tradição filosófica,
mas tentei pensar as diferentes significações
do mal no mundo contemporâneo e na história da
filosofia. É uma obra pessoal, por isso, prezo tanto.
Entrevista realizada pela equipe editorial da Enfato
Comunicação Empresarial com exclusividade para a Revista Leader
Digital
Jornalistas responsáveis: Raquel Boechat e Mariana Turkenicz
Apoio de redação: Juliana Farias Pacheco

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