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Edição Nº 47 - 26 de Fevereiro de 2004
Artigo
RESPONSABILIDADE SOCIAL E LIBERALISMO

* Nelson Peña

Muito se questiona se as ações de responsabilidade social teriam compatibilidade com o ideário liberal, ou se tais práticas que visam à melhoria social estão relacionadas com idéias socialistas ou coletivistas.

A responsabilidade social, atualmente, é interpretada segundo pontos de vistas opostos e que analisam este fenômeno de maneira totalmente contraditória. Há uma grande discussão entre aquelas pessoas que vêem a responsabilidade social como algo relacionado a conceitos socialistas e coletivistas e aquelas que apontam tais ações como sendo uma criação do capitalismo para anestesiar e desestruturar a luta de classes. A responsabilidade social, portanto, é ainda uma questão que gera muita polêmica. Ela é venerada e odiada ao mesmo tempo por liberais e socialistas, pela esquerda e pela direita.

Karl Popper, em seu clássico “A Sociedade aberta e seus inimigos” observa que o individualismo aliado ao altruísmo foi a base de nossa civilização ocidental. O altruísmo e a filantropia são muito mais freqüentes em sociedades com liberdades individuais do que naquelas em que imperam os preceitos socialistas. Da mesma forma as ações de responsabilidade somente podem desenvolver-se de forma relevante em uma sociedade em que exista liberdade de escolha, mercado e ética.

Ao analisar as idéias de Platão, grande precursor do coletivismo, Popper aponta uma citação que não só ilustra o coletivismo, mas também encerra sua forte atração emocional: “A parte existe em função do todo, mas o todo não existe em função da parte”. Platão sugere então que se não pudermos sacrificar nossos interesses pelo bem do todo, somos egoístas, e assim o individualismo seria incompatível como o altruísmo. Todavia, ao contrário do que argumentava Platão, um anticoletivista, isto é, um individualista, pode ao mesmo tempo ser um altruísta, e pode estar pronto a fazer sacrifícios a fim de ajudar outros indivíduos.

Para a maioria dos coletivistas não poderia haver um individualismo altruísta. De acordo com Platão, a única alternância para o coletivismo é o egoísmo. Todo altruísmo é identificado com o coletivismo e todo o individualismo com o egoísmo. Tal confusão propositadamente causada para defender o coletivismo criou considerável confusão na especulação sobre assuntos éticos.
Donald Stewart Jr., um dos maiores liberais brasileiros, falecido a pouco tempo, chamava a atenção para o êxito alcançado pelas correntes de pensamento de esquerda na disseminação da idéia de que eles, e somente eles, se preocupam com o infortúnio dos mais carentes. Os adeptos do socialismo se consideram pessoas sensíveis e preocupadas em acabar com as injustiças e reduzir a miséria, enquanto os liberais, frios capitalistas, só se interessam pelo mercado e pelo lucro.

Já é tempo de percebermos que as preocupações de natureza social e o desejo de acabar com a miséria e com a fome de milhões de brasileiros não são uma peculiaridade das correntes de esquerda, são um anseio de todos os homens de bem. E estes podem ser encontrados ao longo de todo o espectro político. Todos querem acabar com a fome e com a pobreza, a divergência ocorre quanto aos meios a serem utilizados para atingir este resultado.

A diferença essencial entre os liberais e as outras correntes de pensamento socialista ou social-democrata está no fato de que os primeiros consideram a burocracia estatal um fator de emperramento das soluções dos problemas sociais. As soluções liberais privilegiam a iniciativa individual, as organizações da sociedade civil, o direito de escolha de cada cidadão em eleger quais os melhores prestadores dos serviços de natureza social, e a competição entre os fornecedores desses serviços.

A responsabilidade social é uma forma de contribuir para a solução dos problemas sociais, mas também é uma maneira de encobrir a irresponsabilidade do Estado. No Brasil, o Estado formalmente se propõe a combater e acabar com as mazelas sociais, inclusive impondo uma alta carga tributária para atendimento dessas finalidades. Todavia o Estado é impotente e inoperante frente a tais questões. Os programas assistencialistas que vêm sendo implementados pelos Governos Federais não serão solução para os nossos problemas. Os altos custos de intermediação inerentes ao Estado, sua ineficiência, seus processos de licitação e gestão de pessoas tornam esta tarefa demasiadamente onerosa à sociedade. Mesmo com investimento vultuosos, são pífios os resultados alcançados. Esperar que e o Estado acabe com a miséria e com a fome, significa dizer que elas não acabarão.

Mas e esta responsabilidade seria realmente do Estado? Segundo a teoria Liberal não. As funções do Estado são apenas de promover a segurança e garantir os direitos fundamentais para que uma sociedade desenvolva-se. Segundo o ideário Liberal, a responsabilidade é individual, de cada cidadão. Somente a sociedade como um todo, e não o Estado, pode trazer as soluções para os nossos problemas sociais. A responsabilidade social não é, portanto, avessa ao liberalismo, pelo contrário, ela sustenta-se em preceitos de ética e de liberdade individual.

É necessário, no entanto, que se criem condições culturais e econômicas para que a sociedade livremente se organize na busca de soluções para suas mazelas. Um Estado paternalista e assistencialista, além de desestimular a participação individual, fortalece o clientelismo político e impõe, pela alta carga tributária, um empobrecimento geral da nação.

As sociedades existem há milênios com enormes desigualdades na distribuição dos recursos econômicos. É certo que a solução para as milhares de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza está na educação, no desenvolvimento da economia e na criação de postos de trabalho. As ações de responsabilidade social, portanto, não são solução para todos os males, são apenas uma ferramenta de contribuição para o desenvolvimento de uma comunidade.


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Nelson Peña - Advogado e associado do IEE

 

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