| Por
que o socialismo não vence mas o capitalismo perde
* Olavo de Carvalho

Como já observei em outras ocasiões, a maior
vantagem da esquerda internacional é ser internacional,
enquanto as direitas são nacionais, regionais, municipais
ou – no caso dos liberais brasileiros – menos que
distritais.
Mesmo a aliança entre as direitas americana e israelense é tão
tênue que pôde ser posta em risco por uma simples fofoca anti-Gibson
(Abraham Foxman já voltou atrás, mas agora a encrenca está armada).
A organização internacional permite à esquerda produzir
alternadamente, conforme bem lhe convenha, uma impressão de unanimismo
global ou um estado de confusionismo universal. Dominando a grande mídia
européia e americana, dispondo ademais de uma vastíssima rede de
ONGs e sites de jornalismo eletrônico bem articulados entre si, ela conduz
o fluxo de informações no mundo e, segundo a regra historiográfica
de que a difusão de notícias produz mais notícias, domina
também a sucessão dos acontecimentos.
Seu poder sobre a esfera das relações humanas é incalculável
e já ultrapassou de há muito as dimensões de um fenômeno
estritamente político, tornando-se um dado antropológico, um momento
da história da autoconsciência humana (ou da falta de autoconsciência).
A esse poder não corresponde, no entanto, um domínio equivalente
do cenário material. As relações dos homens entre si são
determinadas sobretudo por fatores de ordem simbólica e lingüística
-- a esfera do imaginário -- que uma boa técnica de propaganda
e de guerra psicológica pode controlar e pôr a seu serviço.
Nesse campo, nenhuma corrente ou organização jamais mostrou eficiência
tão grande quanto a da esquerda internacional. Seu sucesso nessa área
vem crescendo ininterruptamente desde o Iluminismo até hoje, acelerando-se
em certas etapas bem marcadas historicamente, como as últimas décadas
do século XVIII, as revoluções do começo e do meio
do século XIX e, no século XX, os anos 30, 60 e 90, prosseguindo
nos dias presentes. O domínio sobre o ambiente material, porém,
depende da organização racional da economia, e isto não
está ao alcance de nenhum movimento esquerdista ou revolucionário,
precisamente porque o espírito revolucionário é, em essência,
hostil à idéia de uma natureza material objetiva a cujas exigências
o homem deva se conformar por meio de uma economia, digamos, “natural” ou “razoável”.
Conforme já demonstrei em O Jardim das Aflições, o marxismo
não tem noção da natureza como realidade autônoma,
apenas como cenário passivo e dúctil da ação humana,
tomada a priori como soberana, onipotente e ilimitada. É verdade que o
socialismo moderno surge, precisamente, como uma ambição de eliminar
aquilo que Karl Marx chamava “a anarquia do mercado” e instaurar
em lugar dela o controle central da economia. Mas a crença mesma de que
o cenário físico terrestre pode ser “administrado” em
sua totalidade é incompatível com a estrutura da realidade. Longe
de ser a pura matéria plástica nas mãos do artesão
humano, a natureza física é um complexo inabarcável ao qual
a “anarquia” do mercado se adapta muito melhor do que qualquer Comitê Central
de planejadores iluminados.
O domínio esquerdista sobre o imaginário das multidões contrasta
pateticamente com a impotência dos regimes esquerdistas para organizar-se
e sobreviver sem a ajuda das nações submetidas à “anarquia
do mercado”. Sem a ajuda americana, a URSS teria desaparecido depois da
II Guerra e a China teria permanecido na Idade da Pedra à qual fôra
devolvida pelo “Grande Salto para a Frente” e pela “Revolução
Cultural”.
Mas essa impotência não se verifica só no contraste entre
nações. Ao próprio domínio psicológico exercido
pela propaganda esquerdista sobre a alma das multidões dentro dos países
capitalistas não corresponde, na prática, nenhuma mutação
equivalente da estrutura econômica e política. Ao contrário,
quanto mais forte se torna a hegemonia esquerdista sobre os meios de comunicação,
sobre o establishment cultural, etc., mais parece tornar-se claro que o tipo
de atividade capaz de produzir essa hegemonia só pode florescer num sistema
democrático-capitalista moderno. Nenhuma economia socialista teria jamais
cacife para sustentar uma multidão de “intelectuais” (no sentido
amplo e gramciano do termo) como aquela que, nos países capitalistas,
tem por única atividade, monstruosamente improdutiva, a propaganda política
e a guerra cultural. Instaurada a economia socialista, esses parasitas seriam
convocados para cortar cana ou servir no Exército, isto se não
fossem fuzilados no primeiro expurgo. Comparem, por exemplo, a produção
de livros, teses universitárias, jornais, revistas, filmes, peças
de teatro e programas de TV pró-esquerdistas nos EUA com o seu equivalente
estatal soviético. A primeira ganha longe, em tamanho, qualidade e eficácia.
Só o capitalismo permite liberar das atividades produtivas uma massa tão
gigantesca de tagarelas dispendiosos.
Ora, os “intelectuais” são a elite revolucionária por
excelência. São o “Novo Príncipe” de que falava
Antonio Gramsci. Mas, se todo o fundamento material da sua atividade reside precisamente
no estado de coisas que professam destruir, se não podem instaurar a economia
socialista sem suprimir ao mesmo tempo sua própria existência como
classe, então é claro que essa existência na sociedade atual
se baseia numa contradição constitutiva que não pode ser
confessada sem que as pretensões da classe a personificar os mais elevados
ideais humanos se autodesmascarem por completo. Ao caráter intrinsecamente
farsesco do seu modo de existência social os intelectuais esquerdistas
devem o tom postiço, declamatório e histriônico da sua retórica.
Eles são mentirosos e hipócritas não porque sejam maus enquanto
indivíduos, mas porque vivem de uma mentira constitutiva e no fundo sabem
que, sem ela, não durariam um dia nas suas posições. Não é verdade
o que dizia Karl Marx, que a posição do indivíduo na sociedade
econômica determina sua consciência. Isso é falso quando aplicado
indistintamente a todos os seres humanos, mas, no caso dos intelectuais marxistas, é a
pura e exata verdade: a farsa em que se baseia sua existência material
determina o conteúdo farsesco das suas idéias.
Isso explica também um fenômeno ainda mais estranho. Na última
metade de século XX, muitas nações caíram sob a hegemonia
ideológica do esquerdismo, mas pouquíssimas dentre elas efetuaram
para valer a “transição para o socialismo”. O poder
adquirido sobre as consciências não se traduziu em transformação
social real. A própria constatação desse estado de coisas
gera entre os esquerdistas o peculiar enervamento que se traduz num estilo de
discurso cada vez mais inflamado, mais radical, mais odiento e, sobretudo, mais
pretensioso e autolisonjeiro desde o ponto de vista moral. A urgência de
destruir os inimigos a todo preço faz com que os porta-vozes da ambição
esquerdista percam os últimos resíduos de escrupulosidade e apelem
como nunca à produção de mentiras e intrigas de qualidade
cada vez mais baixa, que no fundo não enganam nem a eles próprios.
A idéia, por exemplo, de manipular as eleições espanholas
por meio da crueldade em massa é um exemplo de ação desesperada
a que um grupo só recorre em caso de extrema necessidade. Mas há meio
século a esquerda vive em permanente “estado de extrema necessidade”.
Quanto mais domina o ambiente psicológico, menos pode operar a sonhada
transição para o socialismo e, por isso mesmo, mais odientas e
psicóticas se tornam suas palavras e suas ações. Mais ainda,
quanto mais sua retórica adquire poder sobre a opinião pública,
mais a contradição constitutiva e insolúvel da existência
dos intelectuais se expande numa psicose endêmica entre as multidões
e mais a vida humana em geral adquire um tom inconfundível de farsa diabólica
sem fim nem alívio.
O perigo real que a esquerda hoje oferece ao mundo é menos o de implantar
o socialismo propriamente dito que o de transformar num inferno os países
capitalistas avançados – e num inferno dos pobres o Terceiro Mundo.
Os intelectuais iluminados vivem prometendo “um outro mundo possível” só para
que ninguém perceba que o insuportável mundo presente é,
em tudo e por tudo, obra de suas mãos.
Aqueles que vêem essa perspectiva com horror devem, portanto, tomar consciência
de que o inimigo real não é “o socialismo” enquanto
proposta econômico-social, mas a classe dos intelectuais ativistas, criada
e sustentada pelo próprio capitalismo numa espécie de rendição
ante a chantagem moral em que ela o mantem.
Concentrar a discussão em “propostas de sociadade”, contrastando “concepções
do desenvolvimento”, é, portanto, errar o alvo por muitos metros.
As correntes esquerdistas e revolucionárias não nos fazem mal pelas
suas “propostas”, mas pela sua atuação, aqui e agora,
dentro do próprio quadro capitalista que, no fundo, não querem
nem podem destruir. O que importa não é provar a superioridade
teórica do capitalismo perante o socialismo, mas sanear a própria
sociedade capitalista, demolindo o injusto prestígio e o poder que os
intelectuais ativistas aí desfrutam. Ou isso, ou a ilusão de que é possível
ter uma sociedade capitalista saudável com uma ideologia socialista dominante
acabará por infectar da contradição existencial socialista
os próprios defensores do capitalismo, transformando sua vida numa farsa
igual à dos socialistas e tornando o capitalismo uma prisão infernal
na qual não se poderá nem ficar, nem sair.
* Olavo de Carvalho

|