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Mill e as razões da liberdade
*Fernando Luís Schüler
Falar em liberdade nos obriga imediatamente a lembrar de
um ensaio escrito à cerca de um século e meio: On Liberty,
de John Stuart Mill. No plano da chamada liberdade política,
Mill ataca frontalmente o pior inimigo que a liberdade individual
conheceu no século das luzes, Rousseau, ao afirmar a tese
de que todo o poder deve ser limitado e de que o povo pode
desejar oprimir uma parte de si mesmo. Precauções são tão
necessárias contra a isso quanto contra qualquer outro abuso
de poder. seu princípio da liberdade estabelece que a única
finalidade capaz de justificar a interferência dos homens,
individual e coletivamente, na liberdade de ação de outrem, é a
autoproteção. Deriva-se daí uma espécie de ótimo milliano:
o ponto exato em que continuar expandindo liberdades de uns
determina restringir essas mesmas liberdades de outros.
A
obra de Mill me é especialmente interessante por operar em
uma tensão entre três modos usuais que a modernidade tem
utilizado para compreender e justificar a liberdade. Uma
forma possível é simplesmente justificar a liberdade como
um modus vivendi do homem moderno, produto de um certo processo
de evolução civilizacional. Teríamos, nós modernos, apreendido,
desde as duras lutas de religião dos tempos da reforma protestante,
que a melhor maneira de viver em sociedade é o exercício
do respeito mútuo e da tolerância. Esse modo, historicista,
pragmático, é plausível porém insatisfatório. Dificilmente
estaríamos dispostos a admitir que um bem tão precioso como
a liberdade o seja simplesmente porque foi o resultado, afinal
aleatório, da nossa evolução cultural. Isto equivaleria a
dizer que, para outras culturas, a liberdade não pode ser
argumentada como um valor a ser defendido e que não devemos
nos indignar com todas as privações à liberdade que sofrem
as pessoas que vivem nessas comunidades. O relativismo cultural,
nesse extremo, é sempre implausível, em parte porque insincero:
na verdade nos julgamos capazes de formar juízos universais,
que atravessam, por assim dizer, as fronteiras desta ou daquela
cultura.
O outro modo de justificar a liberdade é aquele adotado
na tradição utilitarista.
A liberdade é benéfica porque ajuda a produzir um certo estado de coisas, este
sim desejável. O raciocínio é de tipo consequencialista. Mill parece sentir-se
obrigado a fazer um raciocínio desse tipo quando diz afirma encarar a utilidade
como a última instância em todas as questões éticas, mas a utilidade em seu mais
largo sentido, a utilidade baseada nos interesses permanentes do homem como ser
progressivo. E o coração desses interesses permanentes do homem é precisamente
o que Mill chama a expontaneidade individual. Tudo sob a idéia de que a natureza
humana não é uma máquina a ser construída segundo um model”. A impressão é que
Mill ancorava o argumento sob o manto do utilitarismo de modo a não trair seus
antigos mestres, a começar por Bentham e seu próprio pai, James. Mas logo a seguir
parece entrar em contradição ao abordar as dificuldades que envolvem a defesa
da liberdade na nossa cultura: o mal, porém, está em que a exponteneidade quase
não é reconhecida, pelos modos comuns do pensamento, como tendo um valor intrínseco,
ou como merecedora, por si mesmo, de atenção. Ora, se a liberdade é um mero instrumento
para atingir determinados resultados, como é possível que seja simultaneamente
um valor intrínseco, merecedora de atenção por si mesmo? Mill simplesmente afirma
que a liberdade interessa, de modo irreversível, à consecução do bem estar humano.
Uma espécie de encontro da razão utilitária e do argumento apriorístico.
O terceiro
modo de justificar a liberdade é a conceber como um bem incondicionado.
Neste caso, mesmo que restringir ou suprimir liberdades fundamentais promova,
em certos casos, maior desenvolvimento econômico, a hipótese não é considerada.
O argumento aproxima-se tanto da órbita da teoria do direito natural, com Locke,
no século XVII, ou Nozick, no século XX, como também da moralidade kantiana.
Inimigos dessa posição foram tanto socialistas, quando trocaram a liberdade pela
imposição forçada da igualdade econômica, nos regimes de inspiração soviética,
como certos liberais, que trocaram a garantia das liberdades individuais pela
preservação da economia de mercado e pela expectativa da prosperidade econômica.
Dessa última vertente, as ditaduras latino-americanas dos anos 60 e 70 foram
terreno fértil. Curiosamente, ambos por vezes hoje se encontram elogiando o liberal-comunismo
chinês.
*Fernando Luís Schüler
- Mestre em Ciências Políticas e Doutorando
em Filosofia na Ufrgs

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