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Sérgio Lewin
Prezadas Autoridades já nominadas, meus colegas de
diretoria do Instituto Liberdade, Senhoras e Senhores:
Inicialmente, não poderia deixar de prestar meu reconhecimento
ao trabalho do Ricardo, que é um exemplo de persistência
e obstinação, não só por esses
anos à frente do Instituto Liberal, mas por toda sua
trajetória. Uma das boas coisas desta caminhada são
as pessoas que cruzam pelo nosso caminho. Todos que conhecem
o Ricardo sabem do quanto isso é verdade. Parabenizo
também a toda a Diretoria, a anterior e a nova, pelo
trabalho e dedicação, assim como ao nosso staf.
Agradeço sobretudo ao público aqui presente,
onde vejo muitos amigos e pessoas que nos acompanham e prestigiam
há tanto tempo. Por fim, mas com igual entusiasmo,
ao Dr. Jorge Gerdau, que empresta a sua enorme capacidade
e carisma a todas nossas iniciativas. Obrigado.
Em uma entrevista recente, um jornalista me perguntou qual
a finalidade do Instituto Liberdade. Respondi a ele contando
uma história que li em um ensaio brilhante da escritora
e ex-congressita espanhola Pilar Rahola.
Conta ela que os mineiros tinham, até bem adiantado
do século XX, uma técnica infalível
para se proteger nas profundidades das rochas: os canários.
Eles eram levadas em gaiolas para as minas. A pequena ave,
mais sensível que o homem à falta de oxigênio
e aos gases tóxicos, morreria primeiro que estes se
nas minas houvesse gases venenosos ou muito monóxido
de carbono. Se os mineiros vissem os canários morrerem
ou asfixiarem-se, sabiam que deviam abandonar a mina à toda
velocidade. O canário era o primeiro que sofria por
um mal que acabaria por matar a todos.
Na história moderna, disse ao jornalista, parafraseado
Pilar Rahola, os valores e os princípios liberais
são os "canários" do mundo.
Quando os valores e os princípios liberais começam
a ser atacados, em seguida são as pessoas que são
atacadas.
Todas as grandes ditaduras de nossa época - nazismo,
stalinismo, esquerda, direita, começaram por minar
os valores e conceitos liberais. Se o gás mata o canário,
cedo ou tarde matará o mineiro.
O papel do Instituto Liberdade é justamente o de contribuir
para a construção de um ambiente institucional
equilibrado em que o ar seja respirável aos homens,
independente de seu credo, etnia ou classe econômica
ou social. Essa a minha resposta para o jornalista.
Temos uma trajetória de 20 anos. E desde a fundação
do Instituto Liberal, hoje Instituto Liberdade, as idéias
são as mesmas. São idéias e valores
perenes baseadas no profundo respeito ao individuo e na repulsa
aos sistemas coletivistas que vem tentando coloca-lo como
peça secundária na engrenagem social.
Sofremos, no Brasil, historicamente, de um medo muito forte
da liberdade. Nossa cultura paternalista encontra raízes
bem definidas na história. A verdade é que
o Brasil já nasceu rigorosamente centralizado regulamentado
desde o primeiro instante. Tivemos Coroa antes de ter povo,
parlamentarismo antes de eleições, escolas
superiores antes de alfabetização. O Estado é anterior
a própria sociedade. Não é por acaso
que, do Império a República, tivemos quase
uma dezena de constituições federais e temos
vivido em estado de permanente agitação, com
movimentos integralistas, getulistas, planos monetários
e arbitrariedades para todos gostos. Só no último
século, tivemos 35 anos de ditadura. O ambiente emocional
criado por um Estado Intervencionista age diretamente sobre
as pessoas, inibindo sua capacidade de iniciativa e independência,
minando-lhes, por fim, seu próprio senso de responsabilidade.
O resultado é que no Brasil, ninguém é responsável
por nada. Os governantes não são responsáveis
pelo caos pois tudo é culpa da herança maldita
do antecessor. Ou do FMI. Os criminosos não são
responsáveis pelos seus crimes, pois a situação
social é a culpada. O MST não é responsável
por invadir propriedades alheias, pois eles só estão
querendo um local para trabalhar. Um político é flagrado
com milhões, sua assinatura ali, visível no
extrato e tem a coragem de dizer que o dinheiro não é dele.
A ainda tem peito de se candidatar a prefeito! Temos que
nos dar conta que temos um sistema que facilita a corrupção.
Não adianta apenas punir o corrupto, é preciso
mudar o sistema e diminuir a concentração da
riqueza nas mãos do estado. Sem isso, teremos um escândalo
atrás do outro.
Se criou na sociedade brasileira uma criminosa tolerância
que permitiu que o crime se proliferasse até o ponto
da explosão. Muitos não sabem, mas de acordo
com relatório da ONU 11% dos assassinatos ocorridos
no mundo acontecem no Brasil. Ou seja, de cada 10 pessoas
que morrem assassinadas no mundo, uma morre no Brasil. Não
estamos aqui falando da defesa de direitos vagos, mas do
direito a nossa segurança física. É de
se perguntar: Se nem mesmo o direito a vida é tutelado,
em que espécie de estado de direito vivemos? Agora
assistimos o Ministro da Reforma Agrária defendendo
as invasões no campo e o Ministro das Cidades defendendo
as invasões urbanas. E pergunto novamente: e quem
defende a lei?
Queremos e bradamos por liberdade, mas com responsabilidade.
E com responsabilização. Ou zelamos pelo estado
de direito e fazemos a lei valer no país ou aprofundaremos
ao nível do insuportável o caos em que vive
o país. Este é o papel do Instituto Liberdade,
o papel das forças saudáveis da nossa sociedade.
E quando falo disso quero deixar claro que não estou
falando do governo e das autoridades somente, mas de nos
mesmos, que estamos aqui. Se nos, que tivemos acesso a educação,
que nascemos em boa família, que tivemos oportunidade
de conhecer outros países não fazemos, estamos
esperando que quem o faça?
Após a redemocratização, avançamos
muito no campo político e muito pouco no campo econômico.
Os grupos de pressão e as corporações
do serviço público são hábeis
em garantir para si o que falta ao resto da população.
Só para citar dois exemplos: O Estado do Rio Grande
do Sul consome 80% de sua arrecadação só com
os servidores públicos. No plano nacional, a União
continua gastando mais com três milhões de inativos
da Previdência Social do que com a educação
básica de 38 milhões de crianças e jovens
em idade escolar. O nó deste problema, como de resto
da quase totalidade dos problemas no país, é que
mexer em qualquer destas dotações orçamentárias
significa cutucar um terrível vespeiro de privilégios
constituídos e de corporativismos, o que nenhum governo
teve força política e coragem para fazer. Os
interesses destes grupos de pressão quase nunca coincidem
com os interesses do conjunto da sociedade. Mas eles quase
sempre vencem a queda de braço.Estes são os
verdadeiros ‘donos do poder’ no Brasil, na feliz
definição de Raymundo Faoro. E pergunto: quem
acaba bancando esse festival de direitos a estes grupos de
pressão? O governo não cria riqueza, então
está claro que a sociedade é que paga esta
conta. Vejam que há algo que não fecha nessa
equação. As empresas são conclamadas
a gerar emprego, a melhorar os salários dos seus funcionários.
Por outro lado, existe todo o tipo de barreira e empecilho
para impedir isso: temos hoje a legislação
trabalhista mais engessada do mundo, uma das maiores taxas
de juro do planeta e deixamos 40% da riqueza nacional para
o governo.
Trabalhamos praticamente 5 meses inteiros do ano apenas
para o governo. A sociedade chegou ao ponto da exaustão.
Em um país desenvolvido a sociedade há muito
tempo já teria reagido. Este mês juntamente
com a ACLAME (Associação da Classe Média)
e com o apoio da Federasul e diversas outras entidades, estamos
comemorando o Dia da Liberdade dos Impostos, o que os americanos
chamam de Tax Free Day. É uma data que marca o dia
do ano em que paramos de trabalhar para o governo e começamos
a trabalhar para nos mesmos. A idéia surgiu nos Estados
Unidos. Só que lá eles comemoram o dia bem
antes, lá por fins de março. No Brasil, pelos
nossos cálculos, trabalhamos até o dia 25 de
maio somente para o governo! Somente após essa data
começamos a trabalhar para nos mesmos. Como sempre
ressaltado pelo nosso Secretário Luiz Roberto Pont,
está é uma bandeira de toda a sociedade, não
somente dos empresários.
Se ser radical é ir a raiz dos problemas, então
devemos ser radicais. Nessa questão tributária
não há solução possível
de redução de tributos se antes não
pensarmos o tamanho do estado brasileiro. O resto é discussão
inútil que não levará a lugar algum.
Se persistir o aumento dos tributos, nossos pseudo intelectuais
vão descobrir que não haverá mais classe
média, administrador de empresas ou engenheiros. Estaremos
todos no serviço público. Só que o serviço
público agigantado e sem financiamento produzirá salários
miseráveis aos servidores. Cuba com seu salário
mensal de vinte dólares está aí para
mostrar como vivem bem os funcionários públicos
em um estado socialista. Quem gera emprego não são
os intelectuais, não são os economistas e nem
o governo. ‘Aliás, o governo gera. Acabou de
gerar três mil novos cargos em comissão. Quem
gera emprego é quem se dispõe a tomar riscos.
São os empresários!Quem tem o poder de aumentar
o salário mínimo é a empresa que tem
lucro. Sem isso, não adianta discurso ou vontade política.
Algumas pessoas dizem que temos que trocar o disco, que
temos de mudar o discurso. Infelizmente não podemos.
Não se trata mais de discussão sobre o estado
mínimo ou estado máximo, mas de denunciar um
estado que existe para servir a si mesmo e não a sociedade.
E temos pelo menos a satisfação de ver que
hoje, quando falamos isso, somos melhor compreendidos. Há 20
anos atrás, falar em privatização, em
um estado mais enxuto, em abertura comercial era quase um
crime de lesa pátria. Pagaram o preço da incompreensão
e da intolerância pessoas como Roberto Campos e Donald
Stewart, simplesmente por defenderem idéias hoje aplicadas
pela própria esquerda. Mas o tempo é o senhor
da razão. E hoje está claro que quem pedia
reformas em favor da sociedade nunca foram traidores da pátria.
Traidores da pátria foram os que atrasaram o país
20 anos e que hoje ameaçam atrasar o país por
mais vinte.
A história demonstra que é nos países
com capitalismo mais avançado e com as empresas mais
fortes que os empregados conseguiram atingir melhor padrão
de vida. Se queremos ser progressistas no campo social precisamos
defender as instituições pró-mercado.
As legiões de excluídos estão cansadas
de discursos socialistas que acabam servindo apenas aos interesses
da burocracia encastelada em Brasília.
Temos basicamente dois desafios em nossa gestão.
O primeiro é tornar o Instituto Liberdade um autêntico
think-tank nos moldes americanos. Queremos contar com professores
e pesquisadores em nossos quadros. Ser capazes de influenciar,
através de nossas pesquisas e publicações,
as políticas governamentais e a sociedade em geral.
Um instituto capaz de elevar o nível do debate em
nossa sociedade democrática, de pensar o futuro e
de olhar para as grandes questões com profundidade
e visão de longo prazo.
O segundo desafio, não menos importante e igualmente
ambicioso, é o de multiplicar o número de associados,
massificar nossas idéias e assim começar a
formar uma rede nova no Brasil, uma rede dos que acreditam
que para gerar o desenvolvimento que o país precisa,
necessitamos trilhar um caminho novo, o caminho da liberdade.
Temos um trabalho a fazer principalmente com os jovens. Somos
de uma geração que viveu pós-regime
militar e que foi ensinada a pensar que a liberdade e a democracia
eram valores da esquerda. Hoje os jovens começam a
entender que a liberdade e a democracia só são
realmente possíveis em um estado de direito com economia
de mercado. Por isso saúdo o grupo jovem que existe
hoje no Instituto Liberdade e saúdo todo o trabalho
que vem sendo feito dentro das Universidades com o Cursos
de Liderança que o Ranzolin referiu.
O Rio Grande do Sul é um estado interessante. Aqui
temos sempre o início de vários movimentos,
do positivismo a revolução de 30, do Getulismo
ao regime militar, passando pelo dutrismo e pelo fórum
social mundial, de fatídica lembrança. Tomara
desta vez possamos estar exportando ao Brasil algo realmente
novo positivo: idéias que coloquem o indivíduo
e sua força empreendedora em primeiro lugar.
Senhoras e Senhores:
Durante a Guerra Fria, o Ocidente se deu conta de que Berlim
era o canário que não podiam deixar morrer.
Enquanto a ditadura comunista construía o muro de
Berlim, John F. Kennedy visitou a cidade sitiada e clamou "Eu
sou um berlinense". Estava enviando uma mensagem clara
e forte, que a meu ver era a seguinte:
Se Berlim é atacada, todo o Ocidente o é.
Se deixamos Berlim cair, isolada e fechada em um mar de forças
hostis, então nós seremos os próximos.
No Brasil de hoje, mais do que nunca, devemos, como Kenedy,
conclamar a todos a não permitir que o Brasil se torne
uma nova Berlim.
Meu pai, que infelizmente não está mais aqui,
mas a quem rendo a maior de todas as homenagens, pois a ele
devo muito do que sou, sempre me disse algo muito importante:
as oportunidades surgem para todos, temos que estar preparados
para poder aproveita-las. Oportunidades existem para nos
indivíduos, como para o Brasil. Para que possamos
aproveitá-las temos que nos educar e nos qualificar
para um novo mundo, preparar-nos para assumir riscos e desafios
sem medo diante da vida. Preparar-nos para uma verdadeira
meritocracia. Ou desperdiçaremos as oportunidades
como se elas não tivessem existido.
Nos sentimos muito bem em um instituto que zela por um ambiente
em que os canários não precisem morrer envenenados
apenas para mostrar o óbvio, que o ar está mesmo
intoxicado. Um instituto que tem como missão, humilde
e dentro de suas possibilidades, contribuir para a construção
de uma sociedade em que os mineiros possam trabalhar e progredir
sem medo de também morrerem intoxicados.
Muito obrigado!
Sérgio Lewin - Presidente Instituto Liberdade

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