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Edição Nº 51 - 22 de Junho de 2004

Artigo

ANTES TARDE DO NUNCA

*Fernando Bertuol


A geração dos filhos da classe média que cresceu ouvindo e acreditando que o Brasil era "o país do futuro" esqueceu de perguntar que futuro era este. Passados 30 anos deste sonho não só nos deparamos com um acinzentado futuro como perdemos a capacidade de sonhar e de transmitir aos nossos filhos o sonho que tínhamos de construir um grande e justo país para se viver e para se orgulhar.

Nosso país, privilegiado por belezas naturais deslumbrantes e constituído por um povo alegre e trabalhador, fruto da mistura de muitas raças e da inocência da sua cultura, sofre ao longo de décadas a expropriação de parte significativa de sua renda a título de tributos e taxas, os quais constituem hoje a segunda maior carga tributária do globo terrestre (40% do PIB), sem que se receba o retorno para os quais foram criados.

A classe média brasileira, responsável por cerca da metade do pagamento desta monstruosa carga tributária, trabalhou, juntamente com todos os demais brasileiros que sofrem a incidência dos tributos no seu dia-a-dia, até o dia 25 de maio para pagar esta salgada conta imposta pelos governantes. Soma-se a este período mais 102 dias para que a classe média possa comprar os serviços que os governos (federal, estadual e municipal) deixaram de entregar com o mínimo de qualidade aceitável tais como: escola; segurança; saúde e previdência.

A geração que sonhou com o "país do futuro" trabalha hoje 247 dias para, só depois disto, começar a pensar nos seus sonhos. Será que é possível continuar acreditando no "país do futuro"? A resposta a esta pergunta que não quer calar começou a ser construída no dia 25 de maio de 2004, por um heróico grupo de pessoas de classe média do Rio Grande do Sul (profissionais liberais, professores, funcionários públicos, pequenos empresários, donas de casa, professores, executivos e gerentes ...) através de uma associação criada em 1999, chamada ACLAME (Associação da Classe Média). A entidade nasceu com o objetivo de levantar as "bandeiras" de resgate da dignidade da classe que mais sofre pressão pelo crescente arrocho tributário, desceu da arquibancada e corajosamente instituiu junto co outras entidades, o "Dia da Liberdade de Impostos". A data é um alerta à sociedade e aos governantes, significando que, ou invertemos esta lógica de ineficiência e corrupção na gestão da coisa pública, para que não só a classe média mas também todos os cidadãos de bem deste país possam verdadeiramente sonhar com um grande e mais justo país, ou continuaremos a assistir a corrosão do trabalho, da vontade e da esperança.

Chegou a hora da classe média definitivamente lutar pelo que é seu. A classe média é responsável por 60% dos empregos do país, por 67% da arrecadação do imposto de renda, 62% das vendas dos Shopping Centers saem do bolso da classe média, assim como 54% das vendas de automóveis. Os filhos da classe média têm 60% das vagas nas escolas privadas e é a classe média que sustenta o mercado editorial e tantos outros índices de consumo que movimentam a economia do país.

A carga tributária, inseparável companheira da classe política, que hoje destrói nossos sonhos, é a mesma que está a serviço das corporações estatais e da ineficiência dos governos. Cabe a cada cidadão brasileiro, que quer preservar a democracia e a liberdade, a reflexão e a atitude de mudar, pelo voto, através da escolha de homens e mulheres que, comprometidos com o futuro do Brasil, formem uma nova classe política que ande de costas para a corrupção e que possa resgatar o espírito público que deve nortear qualquer governante, e que há muito tempo já desapareceu dos ideais e das ações daqueles que nos representam.

Comemorar o "Dia da Liberdade de Impostos" é dever daqueles que reconhecem que é possível sim sonhar com um país melhor, é mostrar para os nossos filhos que podem nos tirar tudo, mas se ainda tivermos "voz", nada está perdido. O "Dia da Liberdade de Impostos" é o grito da geração que, mesmo tardiamente, ainda quer o "país do futuro".


*Arquiteto, presidente da Aclame – Associação da Classe Média

 

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